sábado, março 07, 2020

Entre Livros e Lugares

Um livro já nos fez viajar pelo mundo, levando a nossa imaginação a lugares de magia não-comuns. Cresci com a fantasia de Hogwarts, de J. K. Rowling, na escola apresentaram-me à Mafra de Saramago, à Lisboa de Pessoa e ao Palacete de Eça de Queirós. Li Camões e com ele naveguei e descobri. Das minhas leituras surgiram vontades, que se cruzam com a ânsia de conhecer as ruas outrora lidas, desenhadas e interpretadas, de amar o mundo das palavras desejadas.
Do tempo despendido a ler surge inevitavelmente a vontade de dedicar tempo a viajar e daí surge o chamado “Turismo Literário”, que segundo Sardo (2008) entende-se como uma das vertentes de turismo cultural que engloba a descoberta de lugares ou acontecimentos dos textos ficcionais ou das vidas dos autores desses textos, da forma como os lugares influenciaram a escrita e, ao mesmo tempo, como a escrita criou determinados lugares.
Se olharmos para o nosso país, pela sua riqueza literária, rapidamente entendemos este conceito como uma verdadeira oportunidade de se dar a conhecer não só aos que vivem no próprio como a todos aqueles que viajam de outros tantos países. Portugal sempre preservou o seu património e o Turismo Literário segue a história através do tempo, dos autores e das suas obras, obras nas quais se encontram muitos dos lugares retratados, pelo que é muito fácil realizar rotas autênticas.
Como aponta Carvalho (2015), este nicho de turismo, devidamente explorado, contribuirá para a melhoria económica das regiões visitadas, mas também para uma maior publicitação do património imaterial de uma região, para além de mais não é replicável em outros locais, o que vai de encontro às expectativas do público atual que cada vez mais procura experiências únicas.
Embora seja algo pouco trabalhado e aproveitado, existem programas que utilizam a visibilidade e o reconhecimento de histórias e autores para atraírem pessoas. Destes, é de destacar o programa “Escritores a Norte” que surgiu pelas mãos da Direção Regional de Cultura do Norte com o propósito de contribuir para a divulgação e preservação da memória do vasto património literário e cultural presente na região. Trata-se de um projeto que pretende promover uma aproximação dos públicos aos escritores nortenhos, partindo da sugestão de visitas, físicas ou virtuais, às suas casas, espaços de memória detentores dos seus espólios. Neste, é possível ter acesso a roteiros que englobam lugares que fizeram parte do dia-a-dia de escritores, como Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós ou até Miguel Torga, e também acesso aos espaços descritos pelos mesmos nas suas páginas. Sublinha-se ainda a existência de apresentações com uma referência aos temas tratados pelos escritores supra-referidos nos seus trabalhos, contando um pouco das suas vidas.
Pelo Turismo de Portugal são ainda propostas algumas rotas, descritas como “(…)uma viagem por Portugal sem pontos, nem parágrafos, como a escrita de Saramago(…)”. As indicações incluem a intitulada Viagem do Elefante, que ocorre no centro do país, e que o próprio José Saramago realizou para ilustrar no seu livro com o mesmo nome esta trajectória. Outra das propostas é Lisboa de Pessoa, um passeio pela cidade no séc. XX, relembrando a época em que o poeta viveu, sendo que na atualidade ainda existem evidências da sua passagem pela cidade. Lisboa dos Descobrimentos teletransporta para o universo de Luís Vaz de Camões, poeta clássico, grande referência da literatura portuguesa.
Como observamos, é possível viajar sem sair do lugar, basta um livro nas mãos, mas a verdadeira jornada é aquela que se inicia quando nos propomos ver e descobrir os lugares que serviram de inspiração e de mote para uma realidade ficcionada, como a que nos contam os autores que aqui mencionamos, mas que não se esgotam neles. Pensando numa moeda, é a face da aventura, pelo conhecimento partilhado entre livros e lugares, e a face da economia, pela sua melhoria.

Sandra Matos

Referências:
Carvalho, I. & Batista, M. M. (2015). Perspetivas sobre o Turismo Literário em Portugal. Revista Turismo & Desenvolvimento, 24, 55-68.
Escritores do Norte. Retirado de http://escritoresanorte.pt/ (último acesso 01/03/2020).
Sardo, A. (2008). Turismo Literário: Uma forma de valorização do património e da cultura. Egitânia. Guarda: IPG.
Turismo de Portugal. Retirado de https://www.visitportugal.com/pt-pt/content/roteiros-literarios (último acesso 01/03/2020).

(Artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia do Turismo”, de opção, lecionada a alunos de vários cursos de mestrado da EEG, a funcionar no 2º semestre do ano letivo 2019/2020)

Turismo Religioso: Círio de Nazaré

mais de dois séculos, outubro é considerado um mês de devoção no Pará. A capital do mais extenso estado do Brasil, Belém, recebe uma das maiores festas cristãs do mundo, o círio de Nazaré. A tradição mantem-se mais de dois séculos, e desde 2013 é declarada Patrimônio Cultural da Humanidade, pela UNESCO.


Multidões correm para as ruas para aguardar e se emocionar para ver a imagem da virgem de Nazaré passar. A comoção é coletiva. Até os mais céticos, como eu, se deixam levar pela emoção. É inegável que há uma energia de comoção que emana entre as pessoas. É um momento de união de famílias e amigos para assistir a tudo o que acontece nesses dias tão especiais: ver as crianças vestidas de anjo; os barcos de miriti que navegam no mar de gente; ou, até, mesmo aqueles que em seus corpos fracos acham força e fazem o percurso de joelhos. Todos têm apenas um desejo: crer que a virgem de Nazaré é mãe e roga por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte, como diz a famosa prece.


A história começa em 1700, com a aparição de uma imagem de Nossa senhora de Nazaré, encontrada por um caboclo à beira do rio Murucutu, na cidade de Belém. Após diversas tentativas de encontrar um altar para a imagem, milagrosamente ela sempre voltava ao local em que foi encontrada. Assim foi entendido que naquele local deveria ser construído o seu templo, e assim foi feito. Após o milagre da aparição se espalhar, a imagem foi enviada para restauração em Portugal, em 1794. No seu retorno, realizado no segundo domingo de outubro daquele ano, a imagem percorreu do cais da cidade até seu santuário acompanhada por fiéis, autoridades religiosas e governamentais, surgindo a primeira procissão do Círio de Nazaré.


A quadra nazarena realizada no mês de outubro em devoção à Santa, é composta por 12 eventos que envolvem romarias e festejos. As principais romarias são: “O translado da berlinda”- procissão que sai do município de Belém para o município de Ananindeua, em carreata, na qual vai recebendo diversas homenagens pelo percurso; “A romaria rodoviária”- que acontece na madrugada de sábado para domingo, e em que ocorre a procissão da imagem da Santa de Nazaré até à vila de Icoaraci; lá se dá inicio à “A romaria fluvial”, que foi criada em 1985 para que os ribeirinhos que não possuem condições de ir até Belém possam fazer suas homenagens (nessa procissão, todos os tipos de barcos seguem o barco da marinha, que leva carinhosamente a chamada Nazinha pelas águas da Baía do Guajará).


Também é integrada pela “moto romaria”, que começa por volta das 11 horas da manhã do sábado com a chegada da imagem ao cais de Belém. A imagem percorre novamente em carro aberto seguida por romeiros motoqueiros que buzinam anunciando a passagem da santa, que vai até o colégio Gentil Bettencourt, localizado no bairro Nazaré, no centro da cidade.


Na véspera da procissão principal, no sábado, ocorre a “transladação”, na qual os fiéis seguem o carro da berlinda no caminho inverso da procissão principal que será realizada no dia seguinte, domingo, segurando velas que representam o descobrimento da imagem. A principal procissão do círio é o momento mais importante da quadra nazarena. Organizadores do evento confirmam que nos últimos 5 anos reuniram mais de 2 milhões de pessoas em um cortejo que percorre 5 quilômetros. O cortejo é composto pela berlinda atada a uma corda puxada por promesseiros, que movidos pela se reúnem com o intuito de pedir e agradecer à santa graças em suas vidas.
Até 1855, a berlinda era puxada por um carro de bois, mas as famosas chuvas de Belém, e do Norte do Brasil, somadas à cheia da maré, transformaram as ruas de barro em lama, fazendo com que o carro de bois se atolasse, impedindo a continuidade da procissão. Assim, teve-se a ideia de atrelar uma corda em volta da berlinda para ajudar a puxá-la, e assim nasceu mais um detalhe da tradição. E, desde então, os romeiros passaram a utilizar uma corda para ajudar Nazinha, que se tornou item oficial do círio em 1868.
A festa é tão grande que reúne não apenas católicos mas também cristãos de outras religiões, como é o caso dos protestantes da chamada Assembleia de Deus, que ajudam a fornecer nas unidades próximas a basílica pontos de médico e oferecimento de comida e abrigo para os romeiros que chegam de todas as cidades.

Lueli Hage

(Artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia do Turismo”, de opção, lecionada a alunos de vários cursos de mestrado da EEG, a funcionar no 2º semestre do ano letivo 2019/2020)

sexta-feira, março 06, 2020

Namorar Portugal, em Vila Verde


O município de Vila Verde localiza-se no norte de Portugal e pertence ao distrito de Braga. Neste concelho, é típica a abordagem aos Lenços dos Namorados e louças pintadas à mão com os mesmos desenhos que constituem os lenços. Os Lenços dos Namorados tiveram origem no século XVIII, e são panos de linho ou algodão bordados com motivos florais e símbolos amorosos (coração, pássaros a voar, chaves) e contém mensagens em quadras num português arcaico, com alguns erros ortográficos, evidenciando a falta de escolaridade de quem os escrevia. 
A marca Namorar Portugal surge em 2003, através de uma parceria do Município de Vila Verde e da cooperativa Aliança Artesanal, e teve por objetivo proteger e promover os Lenços Namorar Portugal enquanto símbolo da identidade cultural do concelho. Os lenços Namorar Portugal são dos mais fortes representantes do artesanato português e, com esta iniciativa, o objetivo seria conservar e modernizar o seu conceito. Em 2016, como forma de promover e dar a conhecer mais a marca, os aviões da TAP voaram com os lenços dos namorados, e no final de cada viagem o passageiro poderia levar para casa o lenço como recordação.
Namorar Portugal é atualmente uma marca “umbrela”, que abrange três dimensões essenciais (Evento e programação, Produtos e Serviços, e Território/Destino) de promoção de Vila Verde e do ícone identitário de Vila Verde, os Lenços Namorar Portugal. A marca está maioritariamente associada aos típicos Lenços dos Namorados e às louças pintadas à mão, no entanto, com o passar dos anos, foram surgindo novas criações, tais como os sapatos Namorar Portugal e artigos em cortiça, com os respetivos desenhos.
Todos os anos, a 14 de fevereiro, dia de S. Valentim, a marca promove um jantar romântico aberto ao público e a famosos convidados, através de um evento de gala, que funde moda e cultura numa passerelle onde desfilam criações de diversos jovens estilistas e profissionais. Mas a magia deste conceito que surge com a marca namorar Portugal alarga-se a todo o mês de fevereiro, onde existem diversas atividades para celebrar o amor.
A logomarca Namorar Portugal transmite um conjunto de valores intrínsecos ao conceito que suporta: Património, Cultura, Tradição e Amor. O seu logótipo Namorar Portugal tem um traço genuíno, como os desenhos de cada Lenço, e dinâmico, como os novos tempos, unindo a simbologia universal das cores dominantes: vermelho do amor e o preto da tradição.

Carla Cristina Silva e Sousa

(Artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia do Turismo”, de opção, lecionada a alunos de vários cursos de mestrado da EEG, a funcionar no 2º semestre do ano letivo 2019/2020)

Livraria Lello


Os primórdios da Livraria Lello remontam a 1881, quando os irmãos José e António Lello abriram, no Porto, um estabelecimento dedicado ao comércio e edição de livros e, mais tarde, em 1894, compram a livraria Chardron.
No dia 13 de janeiro de 1906 foi inaugurado o edifício da Livraria Lello tal e qual como se encontra nos dias de hoje, pelas mãos do engenheiro Francisco Xavier Esteves. A inauguração contou com figuras políticas famigeradas, rostos artísticos, destacados burgueses e comerciantes da cidade, entre os quais se destaca o escritor Guerra Junqueiro, o diretor de O Comércio, Bento Carqueja, o escritor Júlio Brandão e Aurélio Paz dos Reis, precursor do cinema em Portugal. Ao longo da sala podem ser encontrados os bustos de alguns dos mais importantes escritores portugueses, como Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco ou Teófilo Braga. Também no interior da livraria encontra-se um dos ícones deste espaço, a escadaria vermelha.
O crescente fluxo turístico ao longo dos últimos anos na cidade do Porto, e consequentemente, na Livraria Lello, obrigou a uma nova organização da visita ao edifício, com a introdução em 2015 do voucher descontável em livros. No entanto, esta nova organização não afastou a casa da sua verdadeira essência: uma livraria do mundo no Porto, aberta a todos os amantes de literatura.
Em 2016 e 2017, a Livraria Lello foi restaurada, protegendo o seu património, renovando o seu interior e restaurando a sua fachada e vitral.
De 1906 até aos dias de hoje, a Livraria Lello tem sido reconhecida internacionalmente como uma das mais belas e encantadoras livrarias do mundo, sendo visitada, todos os dias, por milhares de visitantes provenientes de todo o mundo.
Focada na sua missão de dar mais a ler a mais leitores, a Livraria Lello procura ser um ponto de encontro no Porto e a partir do Porto, para todos os que gostam de literatura.
É uma livraria que consegue transmitir através do seu espaço a essência da literatura, mas também a essência da cidade do Porto, e serviu de inspiração a escritores e artistas, entre os quais se conta a autora de Harry Potter, J. K. Rowling. A autora foi frequentadora assídua do espaço durante a temporada em que viveu no Porto, e foi nas célebres escadarias de madeira da Lello que se inspirou para criar as escadas de Hogwarts.
A Livraria Lello oferece agora aos seus visitantes novos espaços. Situado na cave da Livraria Lello existe agora um local dedicado à reflexão e intervenção cultural, onde autores, artistas e amantes de cultura poderão dialogar e produzir cultura. Este espaço acolhe, regularmente, uma programação denominada Vozes Vivas, onde se realizam eventos culturais e artísticos nos domínios da literatura, do teatro, do cinema e do debate ideológico. 
Sendo uma das preocupações da Livraria Lello a criação, exibição e preservação de espólio, que representa um investimento significativo para a Livraria, é inaugurada a sala Gemma dedicada ao culto dos livros. Nesta sala podem ser encontradas primeiras edições, edições assinadas pelos autores, livros raros e edições atuais de livros de luxo.
A Livraria inaugurou também um espaço dedicado ao público infantil, um mundo da fantasia de contos fantásticos, onde a fada dos livros vem visitar as crianças para lhes contar histórias.
Hoje, a Livraria Lello, para além de ser uma das livrarias mais belas do mundo, é um espaço culturalmente enriquecedor, é a casa do encontro de todos os leitores com a cultura e a literatura.

Cláudia da Silva

(Artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia do Turismo”, de opção, lecionada a alunos de vários cursos de mestrado da EEG, a funcionar no 2º semestre do ano letivo 2019/2020)

quinta-feira, março 05, 2020

APDR 2020 Congress - special sesion: call for papers


Revista Portuguesa de Estudos Regionais: nº 54 - especial (2020)

«Vimos pelo presente informar que a RPER n.º 54 (número especial) já está disponível online.



Com os melhores cumprimentos,

Elisabete Martins»

(reprodução de mensagem que me caiu entretanto na caixa de correio eletrónico, proveniente da entidade identificada)

quinta-feira, janeiro 23, 2020

Revista Portuguesa de Estudos Regionais: nº 53 (2020)

A RPER nº 53 (1º número de 2020) já está disponível online.



 "Gestión del Destino Turístico: Percepción de los Impactos Sostenibles"
José Ramón Cardona, Daniel Álvarez Bassi, María Dolores Sánchez-Fernández
"Fatores Intensificadores da Experiência Turística: O Caso do Mercado Medieval de Óbidos, Portugal"
Ricardo José Pedras Rodrigues Ribeiro, Francisco Teixeira Pinto Dias, António Sérgio Araújo de Almeida
"Desenvolvimento Sustentável em Moçambique 2001-2014: Evolução ou Retrocesso"
Martinho Julião Maxlhaieie, Ima Célia Guimarães Vieira



quinta-feira, janeiro 16, 2020

VI Congresso Internacional subordinado à temática Casa Nobre: um Património para o Futuro


«A Câmara Municipal de Arcos de Valdevez está a organizar o VI Congresso Internacional subordinado à temática Casa Nobre: um Património para o Futuro, dando desta forma seguimento a um projecto consolidado de estudo das temáticas:
  • Memória Histórica: História da Família, Genealogia, Documentação Familiar e Heráldica;
  • Arquivos e documentação familiares;
  • Património Construído: estudos, defesa e valorização;
  • Turismo e Desenvolvimento Regional.
O Congresso irá ter lugar nos dias 26, 27 e 28 de Novembro de 2020 no Auditório da Casa das Artes de Arcos de Valdevez.

Agradecemos a divulgação deste Congresso, para o qual convidamos investigadores de diferentes áreas científicas a enviar as suas propostas de comunicação, reflectindo sobre este tema em todas as suas vertentes.

Mais informações sobre o evento em https://sites.google.com/site/casanobrecongresso/.             
               
Aproveitamos o ensejo para apresentar a nossa disponibilidade para qualquer informação adicional, agradecendo o Vosso apoio para a melhor difusão do evento.


Com os melhores cumprimentos,
pela Comissão Executiva
  
(Nuno Soares; Diretor da Casa das Artes, Chefe da Divisão de Desenvolvimento Sociocultural)»


[reprodução de mensagem entretanto recebida, proveniente da entidade identificada]