quinta-feira, março 26, 2020

O legado intercultural Al-Andalus: as rotas que patenteiam opulentos séculos de História

As rotas do legado Al-Andalus convidam à descoberta da Andaluzia, transversalmente influenciada pela presença muçulmana na região entre os séculos VIII e XV. De recordar que, em seus inícios, ocupou grande parte da Península, chegando inclusive aos Pirenéus, parte considerável de Aragão e, progressivamente, foi diminuindo com o culminar do Califado nasrida de Granada em 1492.
Mencionar as rotas é exclusivamente referir um marco e singularidade conceitual expresso em termos históricos, culturais, patrimoniais, sociais, e de tradições, com uma relevância magistral e diversificada. Estas permitem redescobrir a civilização hispano-muçulmana através da sua arte, sua cultura e relações históricas sociais com o mundo árabe, bacia do mediterrâneo e América Latina.
Certamente, a união de vários fatores, desde um marco geográfico limitado, a Península Ibérica, sete séculos de ocupação histórica, contacto com várias regiões até à convivência de três religiões em simultâneo permitiu o desenvolvimento de uma prodígia interlocução a nível intercultural na sociedade e história.
O traçado das rotas inclui trilhos que antes foram idealizados com um propósito: para comunicar o Reino de Granada com o resto da Andaluzia, Múrcia e Portugal, na necessidade de suprir a capital. Na atualidade, demonstram uma base e inspiração histórica que hospeda cidades da Andaluzia que têm muito a dizer e oferecer.
Enquanto algumas rotas são uma clara representação das ligações para suprir as carências, outras adquirem o seu reconhecimento por terem sido percorridas por personagens ilustres, como Washington Irving e Ibn al-Jatib, em diferentes momentos da cronografia.
No que concerne ao turismo, a rede de rotas em matéria histórica, cultural e paisagística apresenta-se como uma oferta vitalmente impulsionadora pelo amplo potencial andaluz: desde a existência de monumentos inigualáveis, palácios majestosos, estilos efervescentes, referências históricas, literárias e lendárias intimamente conectados à civilização andaluza. Neste mesmo sentido, a interculturalidade transposta pode aportar ao mundo atual um dos meios de melhor conhecimento e compreensão entre os povos, e estabelecer laços de solidariedade que contribuam para um futuro e inter-relações otimizadas.
Certamente, é nesta cariz que se realizam as rotas turísticas e culturais, nas quais se destacam a do Califato, que une as cidades de Córdoba e Granada através da província de Jaén, a rota de Washington Irvin, localizada entre Sevilha e Granada, a rota dos Nazaríes, que conecta Jaén e Granada, a rota dos Almohades e Almorávides, conectando  Cádiz e Granada,  e a de al-Mutamid, de Sevilha ao Algarve.
Além do leque diversificado de ideias, cultura e religiões que compõem o interesse principal, de igual pendor é a utilização de tais rotas para um desenvolvimento sustentável, respeitando ambos patrimónios o cultural e o natural.
No decorrer do caminho, o viajante toma maior consciência da função histórica que Espanha e Andaluzia desempenharam como ponte cultural entre Oriente e Ocidente, e melhora a sua compreensão de outras culturas, para a construção de um mundo mais unido e com menos desavenças. Neste sentido, este tipo de turismo, quiçá algo atípico, pode ser determinante, não só pelo marco identitário cultural que exalta, bem como peloo apelo à solidariedade, tolerância e união. Num mundo cada vez mais sublevado e estandardizado na oferta turística, penso que se torna primordial investir numa cultura de paz e num turismo que se desenvolva nesse mesmo conceito, atraindo atenção turística de mente aberta em que diferentes ideais, religiões e origem se conjugam harmonicamente, promovendo o diálogo, aspeto de que se carece, infelizmente, na atualidade.
Em suma, é extremamente importante refletir sobre as potencialidades e valores regionais para a consolidação de uma autêntica política de turismo, em que o usufruto da sua cultura, gentes e história sejam uma potencialidade regional e contributo à serenidade mundial.

Elsa Rodrigues, PG40408[1]

Bibliografia:



[1]  Aluna do 1º ano de Mestrado de Património Cultural, artigo produzido no âmbito da Unidade Curricular de Património Cultural e Políticas de Desenvolvimento Regional proposto pelo docente José Cadima.

(Artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Património Cultural e Políticas de Desenvolvimento Regional”, lecionada ao Mestrado em Património Cultural, do ICS/UMinho)

Palácio de Cristal: reminiscência de um olvido patrimonial e do passado de Portugal

           Na atualidade, o termo "Palácio" remete-nos para um dos mais fascinantes locais da cidade do Porto, situado no antigo campo da Torre da Marca, que albergou em tempos o ilustre Palácio de Cristal e os seus jardins, um agradável espaço verde provido de uma localização promontorial sublime junto ao rio Douro, a partir do qual se contempla uma inigualável perspetiva panorâmica da cidade, difícil de minuciar mas a qual os olhos não se afadigam de apreciar.
      Factualmente, a construção palaciana pende com o discernimento urbano nos finais do século XIX, uma época marcada pelo progresso e desenvolvimento económico, industrial e tecnológico. Sinónimo de progresso, o edifício ostentava na parte cimeira da fachada principal a palavra progredior, representativa da época, relacionada com a vivência progressista urbana. Portanto, o Palácio foi construído para um propósito urbano, que se prendia com a configuração de um espaço destinado a eventos e exposições agrícolas, artísticas, culturais e industriais, constituindo-se como um testemunho vivo do interesse da cidade.
          Produto de uma nova tendência arquitetónica da construção em ferro e vidro que acometeu a Europa oitocentista finissecular, o Palácio reconheceu-se como o estandarte da conceção contemporânea, assumindo-se como um dos ex-libris da cidade, pelo aproveitamento de técnicas construtivas e materiais inovadores para a época, desde o proveito da introdução portentosa do granito na construção, pela concessão de caraterísticas próprias, como o recurso ao ferro e vidro e a ostentação de uma fachada granítica ladeada por torreões monumentais.
         Primordialmente concebido para acolher a Grande Exposição Internacional do Porto, o Palácio, representação sui generis da arquitetura do ferro em Portugal, foi palco de algumas das mais significativas mostras e eventos nacionais durante o seu período de atividade, na sequência do cumprimento do seu intento, tornando-se um importante espaço cultural e de referência pelo acolhimento de prodigiosos concertos de grandes portentos da música clássica, e como albergue de inúmeras exposições, feiras e iniciativas culturais, desportivas e recreativas.
          A partir de certa altura, o Palácio evidenciou grandes problemas económicos que colocariam em causa o seu funcionamento - falta de dinheiro e manutenção do complexo arquitetónico -, onde começaram a ser visíveis os sinais de abandono, degradação e desleixo. Perante o estado de ruína do edifício, resultado do débil investimento na recuperação, conjugado com a permanente articulação de um reportório de reveses financeiras determinantes para a preservação inviável do edifício, a Câmara do Porto adquiriu, em 1933, o Palácio de Cristal e os jardins.
O Palácio foi condenado à demolição em 1951, com a premência e o pretexto da construção do Pavilhão dos Desportos, um espaço apto para a realização dos Campeonatos da Europa e do Mundo de Hóquei em Patins, no ano seguinte. Contudo, até que ponto a destruição palaciana foi tida como uma atitude precipitada? Efetivamente, para a realização de um campeonato do mundo de hóquei em patins era necessário um pavilhão, embora a sua construção poderia ter sido remetida para outro espaço urbano. Deste modo, o palácio foi sujeito à demolição num fim inglório, em sacrifício de uma obra tão emblemática da cidade. Por sua vez, o desmantelamento foi, de facto, célere, tendo-se erguido no seu lugar o Pavilhão dos Desportos - uma edificação deselegante e prática, munida de betão - que manteve a denominação original, acabando por ser renomado, em 1988, de Pavilhão Rosa Mota, numa homenagem patrimonial de reconhecimento a uma das mais ilustres atletas portuguesas. Contudo, a destruição foi sujeita a contestação popular contra este delito patrimonial, corroborado pela sobrevivência da designação Palácio de Cristal até aos nossos dias, prenúncio de um saudosismo e fascínio de um tempo passado, a par da resistência incólume dos jardins, pela revivificação de uma emanante saudade de um edifício que se perdeu nas brumas do tempo e da história.
          Com efeito, os jardins do Palácio permanecem estonteantes, constituindo-se como um património precioso, favorecido pelo envolvente património botânico e a dinâmica cultural e recreativa, num afinco promotor para o incremento da prudência ambiental pública usufrutuária. Por isso, é importante a preservação para disposição de todos, por todo um cuidado impregnado na recuperação e reabilitação, em respeito da autenticidade, história e conservação, como a valorização do património natural e criação de espaços vocacionados para atividades culturais, como cenário de profusas manifestações artísticas e de lazer. Neste sentido, permanece um enlace indissociável entre o património e a memória, pelo vínculo de uma vivência presente procedente da compreensão do passado. Deste modo, os jardins afirmam-se como o testemunho vivo da passagem do tempo, cooperantes da compleição da única evidência do que o espaço foi noutros tempos, pela conservação da memória e toponímia, caraterísticas inerentes ao seu espaço primordial que vigoram ainda nos dias de hoje. 
        Protótipo de uma beleza inalcançável, o Palácio não resistiu em termos estruturais, embora permaneça vivo na memória dos portuenses enquanto parte integrante da história da cidade, pela preservação de um lugar de grande atração turística. Assim, a memória constitui-se como um elemento fulcral na salvaguarda do património, quando a própria preservação efetiva já é inconcebível, considerando que a demolição do palácio foi encarada como um crime de depauperação patrimonial, do qual o Porto nunca se olvidará.

Ana Catarina Gomes

Bibliografia[1]
           Costa, M.C. (2019). Entre todas as cidades, a cidade de Mário Cláudio. Convergência Lusíada, (41), 47-61.
            Rocha, A. (2012). Integração do Palácio de Exposições e Pavilhão para Desportos nos jardins do Palácio de Cristal. A obra nasce: revista de Arquitetura da Universidade Fernando Pessoa, (7), 47-53.
            Peixoto, P. T. (2012). Os jardins do Palácio de Cristal e as Fontes D´art. Revista Arquitetura Lusíada, (4), 105-112.
            Vieira, M.F.S.B. (2013). Os dois "Palácios de Cristal" ou a recepção da Exposição Mundial de Londres (1851) em Portugal. Revista da Faculdade de Letras: Línguas e Literaturas, 18, 427-438.



[1] Sob a norma APA 6th.

(Artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Património Cultural e Políticas de Desenvolvimento Regional”, lecionada ao Mestrado em Património Cultural, do ICS/UMinho)


sábado, março 21, 2020

Programa 365 Algarve e o combate à sazonalidade

O Algarve é desde há décadas uma região de Portugal altamente turística. No entanto, esta intensa atividade turística também sempre foi caraterizada por uma forte sazonalidade. Isto foi trazendo alguns impactos à região e aos seus habitantes, estando a região muito cheia e movimentada nas alturas de Verão e muito vazia e sem vida nas restantes alturas do ano.
Um dos impactos que mais se faz sentir dada esta sazonalidade é no emprego, na região: no Verão, com a grande quantidade de turistas, existe muita oferta de emprego (sobretudo na hotelaria, restauração, serviços de animação e guias turísticos), havendo até por vezes falta de colaboradores, o que atrai trabalhadores temporários de várias regiões do país que se deslocam para o Algarve para trabalhar no Verão. No entanto, quando a época alta termina, uma grande parte destes postos de trabalho já não são necessários e por isso são extintos, existindo uma quebra de trabalho disponível com a diminuição de clientes. O Algarve foi vivendo, em grande parte, de turismo e consequentemente de uns limitados meses do ano. Tal situação impacta negativamente a população ativa da zona, que se vê frequentemente em empregos temporários e precários, temendo sempre o desemprego durante a época baixa, medo que é iminente e uma realidade. Para tentar combater a sazonalidade de modo a diminuir a instabilidade, procura-se dinamizar as zonas algarvias de modo coeso nos meses mais baixos através do programa 365 Algarve.
1. Logotipo do programa 365 Algarve

Com base no lema “Every day counts”, é complementada ao longo de todo o ano e não apenas na época alta, a oferta tradicional da região com apresentações de música, dança, teatro, exposições, animação de património, gastronomia e cinema em todo o território algarvio. O programa é construído exclusivamente através da apresentação de candidaturas de agentes culturais e de empresas de animação turística sediadas no Algarve. Através de apoios e da articulação entre estes agentes culturais, o objetivo é promover um programa cultural de qualidade e com diversidade temática e artística, regular, geograficamente coeso e abrangente, ao longo dos meses de outubro até maio, aquando normalmente existe uma quebra no turismo e mais necessidade de dinamização regional. Assim, a seleção das candidaturas a aprovar é feita de modo a ter iniciativas de alto nível e de caraterísticas diversas, de frequência regular e um pouco por todo o território algarvio ao longo dos oito meses referidos. Deste modo, é possível tornar a iniciativa mais acessível e abrangente, chegando até aos mais interessados.
É possível consultar uma agenda da programação cultural que irá ter lugar brevemente em qualquer zona algarvia nos meios eletrónicos da iniciativa, promovendo deste modo a divulgação. Além disto, são fornecidos detalhes de cada atividade e a possibilidade de facilmente comprar bilhete nas iniciativas que o requerem. As iniciativas gratuitas também estão marcadas como tal. Estes detalhes também acabam por facilitar a captação de interessados ao informá-los efetivamente sobre o cariz de cada atividade e ao tornar-se num canal direto e prático de venda de bilhetes e de divulgação de oportunidades gratuitas.

2. Agenda cultural no website 365 Algarve (cancelamentos devido ao COVID-19)

Através da hashtag criada para o efeito, #365Algarve, os visitantes podem partilhar as suas impressões e imagens das atividades da iniciativa, o que também funciona como veículo de divulgação do programa e de troca de impressões pessoais.
Inicialmente, o programa foi projetado em 2016 para ter três edições; no entanto, dado o seu grande sucesso, o Governo decidiu estendê-lo. Atualmente, decorre a quarta edição, que começou em outubro de 2019 e estará ativa até maio de 2020. Esta decisão foi tomada com base em dados governamentais que concluem que o programa tem atraído cada vez mais público e que a média de espectadores tem aumentado sempre de edição para edição.
Assim, pode ser concluído que o programa 365 Algarve foi um sucesso e uma medida positiva para combater a sazonalidade, que pode ser um dos grandes problemas aportados pela atividade turística e que tanto afeta esta região, em particular, ao dinamizar a atividade turística em meses mais baixos. Inclusive, esta iniciativa tem capacidade de ser adaptada e implementada com relativa facilidade em outras zonas que também sofram com a grande sazonalidade.

Matilde Oliveira

Referências
·         365 Algarve. Apresentação. Recuperado em 19 março, 2020, de https://www.365algarve.pt/pt/menu/243/apresentacao.aspx
·         365 Algarve. Programa – Eventos 365 Algarve. Recuperado em 19 março, 2020, de https://www.365algarve.pt/pt/agenda.aspx
Agência Lusa. (2019, 5 fevereiro). Programa "365 Algarve" tem garantida a quarta edição, a arrancar em outubro. Observador. Recuperado em 20 março, 2020, de https://observador.pt/2019/02/05/programa-365-algarve-tem-garantida-a-quarta-edicao-a-arrancar-em-outubro/

(Artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia do Turismo”, de opção, lecionada a alunos de vários cursos de mestrado da EEG, a funcionar no 2º semestre do ano letivo 2019/2020)

sexta-feira, março 20, 2020

Beleza Natural vs. Catástrofes Naturais

         Muitos lugares do mundo encantam-nos pelas suas paisagens e beleza natural, facto que atrai inúmeros turistas de lazer e aventura. Mas a verdade é que alguns destes locais estão nas zonas mais perigosas do mundo por diversas razões. Normalmente, encantam-nos pela beleza dos vulcões ou pelo clima tropical. Esse clima tropical relaciona-se com a posição no globo, o que nos leva também a catástrofes, como furacões, terramotos, tsunamis, etc.
         Mas não é por esses motivos que estes destinos deixam de ser visitados, como é o caso da Indonésia. Um dos destinos preferidos de quem visita esta província é Bali, que conta com 42% dos 14 milhões dos turistas internacionais que visitam a província. Isto acontece mesmo sabendo que este é um local onde acontecem muitas catástrofes naturais. Por exemplo, em 2017, o vulcão Agung entrou em atividade. Isso fez com que milhares de turistas ficassem retidos. Mais recentemente, em 2018, ocorreu um terramoto em Lombok, um sismo e um tsunami nas ilhas Cébeles.
         Nas Filipinas, o peso do turismo no PIB foi de 24,7%, em 2019. O que é uma percentagem bastante significativa tendo em conta que a média mundial é de 10,4%. E 65% dessas deslocações foi feita por lazer e não por motivos de trabalho, que normalmente não dependem de uma escolha. Só com a visualização destes dados, poderíamos pensar que este é um dos melhores destinos mas, pelo contrário, este é um dos destinos mais perigosos devido à sua volatilidade climática, pois é um local onde ocorrem sistematicamente furacões e tempestades tropicais. 
         A Costa Rica, sendo uma zona formada por vulcões, alguns ativos, e pela sua localização também se torna um destino onde se devem tomar alguns cuidados. Nesta região ocorrem muitas vezes terramotos, furacões e tempestades mas, mesmo assim, 13,1% do PIB deve-se ao turismo, onde 74% se deve ao turismo de lazer e 65% por parte de turistas internacionais.
         Na Europa também existem países onde a beleza natural atraia bastantes turistas, mas que incorrem em alguns riscos, não pelo clima tropical mas sim pelos vulcões existentes. Por exemplo, na Islândia, onde em 2010 o vulcão Eyjafjallajokall entrou em erupção levando ao encerramento dos espaços aéreos e cancelamentos de mais de 100.000 voos, afetando 8 milhões de passageiros. Mesmo assim este país é um dos que mais encaixe financeiro tem com a rubrica do turismo nas contas nacionais na Europa, representando 32,6%, em 2019, onde 72% dos visitantes dizem respeito a turismo internacional.
         Para que se possa viajar para estes lugares de uma forma mais segura, existem alguns passos que os viajantes devem tomar em consideração. Em primeiro lugar, deve-se verificar qual é a altura do ano mais favorável à viagem, principalmente nos destinos que são afetados por tempestades. Em segundo lugar, quando a viajem é programada por uma agência de viagens, existem condições nas políticas de reserva que têm em conta os seguros. Para este tipo de destinos, existe uma variante bastante importante: os seguros para desastres naturais. Também se deve ter em atenção a compra dos bilhetes de avião. Estes devem ser comprados juntos, principalmente quando se viaja em diferentes companhias. Caso aconteçam incidentes como o da Islândia e existam voos cancelados, temos uma ressalva para os restantes voos, que não necessitam de custos adicionais. Um último conselho será levar o contacto da embaixada e consulados, caso necessite de alguma informação.
         Ou seja, como vemos pelos números apresentados, não é por um país apresentar riscos que deixa de ser visitado. Muitos turistas não deixam de querer experienciar certas aventuras e deslumbrar-se com paisagens de cortar a respiração. Estes destinos têm também, em alguns casos, medidas que protegem os visitantes e a população, em geral. O que é necessário é termos boas informações do local que vamos visitar e em que altura realizar a viagem. E importa nunca deixar de lado a possibilidade de que algo possa correr mal e prevenirmo-nos para essa eventualidade. 

Carina Sousa

Bibliografia:
https://www.wttc.org/

(Artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia do Turismo”, de opção, lecionada a alunos de vários cursos de mestrado da EEG, a funcionar no 2º semestre do ano letivo 2019/2020)

quinta-feira, março 19, 2020

Santuário de São Bento da Porta Aberta

O Santuário de São Bento da Porta Aberta localiza-se na freguesia de Rio Caldo, em Terras de Bouro. É um santuário católico português situado no Norte e que teve a sua origem em 1615, com a construção de uma pequena ermida (Igreja ou Capela de pequenas dimensões). A designação de São Bento da Porta Aberta deve-se ao facto de a ermida ter sempre as suas portas abertas, servindo de abrigo aos viajantes.
Em 1880, procedeu-se a obras para a reconstrução da ermida, dando origem ao Santuário que, por atrair milhares de peregrinos, tem sido progressivamente alargado. Em 1994, passou-se à construção de uma Cripta, cujas obras ficaram concluídas em 2002. Neste santuário podem ver-se painéis de azulejos que narram episódios marcantes da vida de São Bento. Porque as peregrinações a São Bento da Porta Aberta são tão relevantes, foram traçados vários caminhos que os peregrinos percorrem até chegar ao Santuário, inserido na Serra do Gerês.
Anualmente, o São Bento da Porta Aberta recebe milhões de peregrinos, e é considerado o segundo maior santuário português, depois de Fátima, mesmo não apresentando uma situação geográfica favorável, nem sendo beneficiado por relevantes vias de comunicação. Em 21 de Março de 2015, na comemoração dos 400 anos do Santuário, o Papa Francisco elevou-o à categoria de Basílica, a pedido do Arcebispo de Braga e Primaz das Espanhas, D. Jorge Ortiga.
O Santuário do São Bento da Porta Aberta, por vezes também tratado por São Bentinho, atrai na sua maioria visitantes religiosos. A maior parte dos seus visitantes vem para proceder a promessas religiosas e para pedir proteção ao santo. No entanto, são muitas as pessoas que visitam o Santuário pela sua atração paisagística: a vista que o rodeia é magnífica e fica situado no Gerês, que é um local de atração a turistas.
As visitas dos turistas e peregrinos são feitas de diversas maneiras. Uns fazem o percurso a pé, provenientes das mais diversas regiões do país, e outros utilizam todos os meios de transporte que permitem o acesso à atual Basílica. Alguns dos peregrinos optam por fazer este percurso isolados, outros em família ou em grupo. Tal como no Santuário de Fátima, as visitas e percursos em direção ao São Bento da Porta Aberta verificam-se em qualquer que seja o dia do ano, quer seja de noite ou de dia.
Nas imediações do Santuário de S. Bento da Porta Aberta existem espaços comerciais, onde se pode encontrar alguns artigos da região, tais como chás, mel, doces regionais, doces de romaria e lembranças deste local, para recordar ou oferecer como lembrança.
Também localizado em frente ao Santuário de S. Bento da Porta Aberta, existe um parque, designado de Parque de S. Bento, que compreende uma área de 2,39 hectares que é atravessado por vários caminhos, com espaços físicos para todas as faixas etárias, proporcionando verdadeiros momentos de lazer. As suas visitas são com maior afluência no período de Verão.
Na sua infraestrutura encontram-se diferentes atmosferas, compostas por um parque de merendas, bar de apoio, um lago com barcos, zonas de clareiras abertas de prado com árvores que pontuam o espaço, zona de palco com anfiteatro para receber várias atividades culturais e um parque infantil. A presença de água e a vasta vegetação existente é também uma constante, proveniente de uma nascente que proporcionam uma atmosfera refrescante.

Carla Cristina Silva e Sousa

(Artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia do Turismo”, de opção, lecionada a alunos de vários cursos de mestrado da EEG, a funcionar no 2º semestre do ano letivo 2019/2020)

Santuário de Fátima


O Santuário de Fátima é a maior referência religiosa em Portugal, a qual é visitada por milhares de peregrinos de todo o mundo.
Em 1917, três crianças pastoras, Jacinta e os dois primos Francisco e Lúcia, testemunharam sucessivas aparições de Nossa Senhora do Rosário, mas apenas em 1930 isto foi reconhecido pelo bispo de Leiria. A partir daí, Fátima foi considerada vila (1977), e mais tarde cidade (1997).
O reconhecimento do Santuário cresceu sobretudo com João Paulo II, pois este assumiu-se como devoto de Nossa Senhora de Fátima. Em 2000, João Paulo II, anunciou a beatificação de Jacinta e Francisco, a quem o Vaticano atribuiu o milagre de uma cura.
As principais celebrações de Fátima ocorrem a 13 de maio, data na qual surgiu a primeira aparição (ainda que surgissem também aparições no mesmo dia dos outros meses, até Outubro). Um dos momentos mais relevantes é a Procissão das Velas, na noite de 12 de maio, em que milhares de fiéis enchem a praça do Santuário e concedem a este lugar um ambiente mágico, de comunhão e devoção religiosa. Da mesma forma, há a Procissão do Adeus no dia 13.
Com isto, surgem milhares de peregrinos ao longo de todo o ano, os quais partem de diversos pontos do país, muitos dos quais a pé, seguindo por estradas e caminhos rurais, aos quais chamamos “Caminhos de Fátima”.
Independentemente da crença e/ou religião, a grandiosidade e o simbolismo, são experienciados por todos os que lá passam.
O Santuário é composto por um Recinto de Orações, pela Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima (com 65 metros de altura!), o Monumento ao Sagrado Coração de Jesus, a Capela das Aparições e a Igreja da Santíssima Trindade - Basílica Menor (inaugurada em 2007). Em 2017, comemorou-se o centenário das aparições, o qual contou com a presença do Papa Francisco.
Relativamente perto de Fátima, podemos encontrar praias como São Pedro de Moel e Nazaré (ondas gigantes), classificadas como Património da Humanidade, assim como o Mosteiro da Batalha e o de Alcobaça.

Cláudia da Silva

(Artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia do Turismo”, de opção, lecionada a alunos de vários cursos de mestrado da EEG, a funcionar no 2º semestre do ano letivo 2019/2020)

Paisagem Cultural de Sistelo: um breve olhar sobre o impacte do turismo

A Paisagem Cultural de Sistelo, também conhecida como Tibete Português devido às paisagens repletas de socalcos, é uma aldeia de remota origem medieval – das mais antigas do Alto Minho – situada no coração do Parque Nacional da Peneda-Gerês, muito próxima à nascente do rio Vez. Localizada a norte do concelho de Arcos de Valdevez, encontra-se encaixada no fundo de um vale e abarca em si os lugares de Igreja, Padrão e Porta Cova, encastoados entre o troço inicial do rio Vez e a serra da Peneda.

Figura 1 - Socalcos de Sistelo


Trata-se de um local revelador de uma profunda relação entre as suas populações e o respetivo território, representando um exemplo da capacidade de adaptação do Homem às singularidades e adversidades da natureza, como, de resto, podemos constatar pela criação dos socalcos. Em tempos, os declives caraterísticos desta região constituíam uma barreira natural à agricultura, tendo sido ultrapassada pela construção de socalcos que permitiram não apenas contrariar o declive natural do território mas, também, o aumento da superfície agrícola.
Este local é, também, caraterizado pela sua arquitetura vernácula centrada no uso do granito, que moldou a feição de habitações, templos, pontes e calçadas. Repleta de património, a aldeia de Sistelo contempla um conjunto de elementos de interesse cultural e turístico, nomeadamente a Ponte Romana de Sistelo, a Igreja Paroquial, uma variedade de capelas, um cruzeiro e um fontanário. Assume destaque a Casa do Castelo de Sistelo, um palácio revivalista de planta retangular, com duas torres com ameias, cuja origem remonta à segunda metade do século XIX, mandado edificar por Manuel António Gonçalves Roque, filho da terra, primeiro e único Visconde de Sistelo, após o seu regresso do Brasil. A aldeia de Sistelo possui, ainda, um miradouro – miradouro do Chã da Armada –, a partir do qual se pode contemplar a paisagem, bem como um trilho – trilho das Brandas de Sistelo – e a Ecovia do Vez, que percorrem uma parte significativa do concelho.

Figura 2 - Casa do Castelo de Sistelo


É assim que, considerando todos estes elementos, a Câmara Municipal de Arcos de Valdevez lançou, a 4 de Dezembro de 2008, a proposta para a classificação da Paisagem Cultural de Sistelo. A 9 de Maio de 2017 dá-se a publicação do projeto de decisão relativo à classificação como Sítio de Interesse Nacional/Monumento Nacional da Paisagem Cultural de Sistelo. A 3 de Setembro de 2017, a aldeia de Sistelo é eleita uma das 7 Maravilhas de Portugal, na categoria de Aldeia Rural, pela iniciativa da RTP.
A aldeia de Sistelo integra, ainda, a Rede Natura, bem como parte de uma área protegida que, em 2009, terá sido classificada pela UNESCO como Reserva Mundial da Biosfera. De acordo com a Direção Geral do Património Cultural, a Paisagem Cultural de Sistelo é composta por um espaço natural de superior qualidade paisagística, natural e ambiental, ao qual se soma um notável património etnográfico e histórico.

Figura 3 - Aldeia de Sistelo


Após a classificação de Aldeia Rural pelo programa da RTP das 7 Maravilhas de Portugal, bem como a promulgação do diploma que classifica Sistelo como monumento nacional, enquanto paisagem cultural, pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, a aldeia de Sistelo sofreu um surto turístico, passando a viver dias agitados com o crescente fluxo de turistas. Para tal, contribuíram, também, os cerca de 10 quilómetros de passadiços integrados na Ecovia do Vez.
Além de todas as alterações produzidas para albergar o crescente número de turistas, nomeadamente, no que respeita à ampliação de espaços existentes, bem como a criação de novos espaços, do qual é exemplo um café-restaurante, onde anteriormente terá funcionado apenas uma mercearia, foram, também, implementadas medidas de contingência, no que respeita às rotinas e aos modos de vida da população.
Com isto, surge também a necessidade de criar unidades de alojamento para os turistas, devido à escassez das mesmas, revelando-se, por parte de várias pessoas, crescente o interesse no investimento neste sentido. A par das necessidades manifestadas, surgem iniciativas, nomeadamente a transformação da Casa do Castelo em centro interpretativo da paisagem cultural, com o objetivo de acolher os turistas, orientando-os para os vários recantos da aldeia, a recuperação de um velho moinho e o acréscimo de mais meio quilómetro aos passadiços. Estas alterações têm por base a candidatura a projetos de financiamento que permitem a realização das mesmas.
Se, por um lado, toda esta nova realidade é encarada como uma oportunidade, sobretudo por parte dos jovens, que encontram nesta mudança novas perspetivas de construírem o seu futuro na sua terra natal, contribuindo para o desenvolvimento da mesma, por outro lado, os mais velhos encaram tudo isto como uma violação da pacatez da aldeia, refugiando-se nos campos com o intuito de evitar as câmaras fotográficas dos turistas. Neste sentido, a questão que se coloca procura compreender em que medida o turismo pode ser benéfico para esta região enquanto património, pois, se, por um lado, este fenómeno produz desenvolvimento social, cultural e económico, por outro lad, condiciona e limita as caraterísticas naturais, bem como a genuinidade do local, se considerarmos que o elevado fluxo de turismo retira ao espaço e à população a pacatez que a caraterizava.

Ângela Maria Rodrigues Calisto

Referências:

(Artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Património Cultural e Políticas de Desenvolvimento Regional”, lecionada ao Mestrado em Património Cultural, do ICS/UMinho)