sábado, janeiro 07, 2023

Do baú de memórias de um professor universitário: "Produtos regionais e desenvolvimento"

   Desde os anos 80 do século XX que é relativamente consensual entre os estudiosos do desenvolvimento que as grandes empresas não constituem o único motor do crescimento económico. Este resultado decorre, em grande medida, da constatação de que havia/há um número crescente de pequenas empresas de iniciativa local, algumas vezes localizadas em regiões rurais, que laboram produtos regionais de elevada qualidade, que colocam nos mercados nacionais e externos. O sucesso dessas empresas tira proveito, amiúde, da preservação de certas tradições em matéria de produtos típicos desses territórios (produtos regionais), isto é, a diferenciação da sua oferta e a competitividade que conseguem vêm-lhes da singularidade dos produtos que produzem e/ou comercializam.

Quer isso dizer que as especificidades das regiões, associadas às suas histórias, geografias e culturas, podem ser mobilizadas para qualificar os bens e serviços que oferecem. Assim sendo, é expectável que as empresas locais usem as referências territoriais para incrementar o valor dos seus produtos e sustentar a respectiva diferenciação face aos competidores. Para que essa estratégia obtenha sucesso é necessário que a procura, (isto é, os consumidores) valorize(m) a qualidade desses produtos e que, a nível de oferta, haja quem perceba a oportunidade de negócio que esses bens encerram e seja capaz de estruturar o projecto empresarial que a materialize.

Tal também significa que não basta ter ideias. É preciso que as ideias sejam secundadas por capacidade de realização e de estabelecimento de uma estratégia de mercado conveniente. A este nível, note-se que estão longe de ser despiciendas aspectos aparentemente tão elementares quanto o são a embalagem, a etiqueta e a marca que se usam.

Peça basilar neste processo é a possibilidade de tirar partido de Designações de Origem Protegida ou figuras legais similares, que protegem certos produtos típicos regionais de usos abusivos. Essa protecção, aparte impedir a apropriação por operadores externos ao território do produto em causa, garante-lhes a reputação (imagem) junto dos consumidores, ao obrigar os respectivos produtores ao uso dos ingredientes e dos procedimentos de fabrico e de conservação configurados pela tradição.

Um exemplo de aproveitamento comercial de um produto típico de uma das regiões portuguesas é o da Queijos Matias. Este caso também ilustra a relevância da estratégia de negócio e do funcionamento em rede.

A empresa de cariz familiar Queijos Matias, Lda., localizada em Seia, é um pequeno produtor de queijo da Denominação de Origem Protegida (DOP) Serra da Estrela, que comercializa os seus produtos sob a marca Casa Matias, sobretudo. Esta actividade faz parte de uma tradição de família, que há mais de dois séculos se dedica à produção de queijo da Serra.

Este tipo de queijo é produzido a partir de leite de ovelha, por processos tradicionais, o que lhe confere características próprias. Além da preservação dos métodos tradicionais de fabrico do queijo, os rebanhos da empresa são constituídos exclusivamente por ovinos da raça Bordaleira, que é conhecida por ser “a raça nacional de melhor aptidão leiteira”. Todos os dias efectuam a ordenha, da qual é feita uma selecção criteriosa do leite.

O crescimento da empresa tem sido prosseguido através da conquista de pequenos nichos de mercado, baseado na aquisição, em 1992, do certificado de produto oriundo de região com Denominação de Origem Protegida. Hoje em dia, no mercado nacional, a Queijos Matias, coloca a sua produção sobretudo em super e hipermercados (Carrefour, Continente, Makro e El Corte Inglês, entre outros), sob as suas próprias marcas ou as das cadeias retalhistas com que opera. A relação mantida com o Grupo Carrefour, “que comercializa 40% da produção total”, viabilizou que a firma pudesse vender o seu queijo também nos mercados externos, nomeadamente em Espanha, França e Brasil. Actualmente, comercializa o seu produto também nos Estados Unidos, em Itália, no Luxemburgo, na Suiça e no Japão.

Em 2001, na sequência do crescimento do negócio, a Queijos Matias decidiu estabelecer uma parceria com 25 outros produtores da região DOP, por forma a ter acesso à respectiva produção leiteira, o que lhe permitiu alcançar, no ano de 2004, uma produção do queijo Serra da Estrela de 50 toneladas.

Um impulso importante para a expansão da empresa e a divulgação dos seus produtos no mercado internacional foi a participação em várias feiras e concursos internacionais. Além disso, “a Casa Matias foi a primeira empresa portuguesa a aderir ao movimento Caseus Montanus, entidade com sede em Itália e que se dedica a preservar, manter e divulgar os queijos de montanha europeus”.

A diversificação do negócio está a ter lugar através da abertura de uma casa de Turismo no Espaço Rural. Para além de albergar os turistas, a Casa Matias possibilita o contacto com a actividade pastorícia e com o processo de fabrico de queijo.


J. Cadima Ribeiro

jcadima@eeg.uminho.pt


(Texto publicado no Diário do Minhoem 2007/06/25)


segunda-feira, janeiro 02, 2023

Book chapter: Social Entrepreneur's Networks and Institutional Environment: Ties That Bind?

 Abstract

Institutional environments are widely regarded as a crucial advantage of regions to promote social entrepreneurship. However, there is scarce empirical support on the importance of network relationships and the ties that bind, both institutions and social entrepreneurs. This study contributes to filling this gap by analyzing network relationships and the institutional environment in Portugal. A quantitative approach is used in the study, using primary data collected through an online survey. A questionnaire was emailed to both Portuguese Non-Governmental Organizations and projects available on the Portuguese Social Stock Exchange. In the analysis of the data, the authors used descriptive statistics and canonical correlation analysis in an attempt to examine the links between network relationships and the institutional environment. The results we got show that a favorable institutional environment is not independent of the decision to start a new social venture.

Susana Bernardino (CEOS.PP/ISCAP/P.Porto, Porto, Portugal), José Freitas Santos (CEOS.PP/ISCAP/P.Porto, Porto, Portugal) and José Cadima Ribeiro (University of Minho, Braga, Portugal)

https://www.igi-global.com/gateway/chapter/316299#pnlRecommendationForm

https://www.igi-global.com/gateway/book/308822



segunda-feira, novembro 14, 2022

"Regionalização e Descentralização em Portugal": título (provisório) de livro a publicar pela UMinho Editora, em meados de 2023

Justificação para a publicação do livro:

O debate da Regionalização do país voltou a emergir. Periodicamente, tem-se retomado a discussão do tema, se bem que sem consequências de maior. A exceção em matéria de alcance do debate que foi acontecendo foi a realização do referendo de 8 de novembro de 1998, cujo resultado significou a criação de um bloqueio substantivo à institucionalização da instância regional de governo. Por detrás desse retomar do debate estão, por um lado, a inclusão dessa temática no Programa do XXIII Governo, definindo-se aí o objetivo de realizar um novo referendo em 2024, e, por outro lado, as sequelas da implementação da Lei nº 50/2018, de 16 de agosto, que estabeleceu a transferência, gradual, de um conjunto alargado de competências para as “autarquias locais” e as “entidades intermunicipais”.

Cabe aqui assinalar que a entidade sobre a qual incide o essencial do processo de descentralização que se pretendeu concretizar ao abrigo da Lei nº 50/2018 é o Município, tendo as Comunidades Intermunicipais um papel subsidiário. Na ausência de estrutura intermédia, isto é, regional, percebe-se que tenha sido atribuída às comunidades intermunicipais esse papel de coordenação, planeamento e gestão de recursos. Em todo o caso, em muitas situações, essa escala oferece-se inadequada (subdimensionada), para além da entidade em causa ser desprovida de legitimidade política direta, e, daí, estar dependente da capacidade de concertação interna dos municípios participantes.

Tendo presente o contexto que se enuncia, importa refletir sobre a oportunidade e os fundamentos para se avançar no processo de regionalização em Portugal, e sobre aquilo que pode estar em causa quando se encetam iniciativas de descentralização do poder suportados apenas nas instâncias locais. Obviamente, equacionando-se a regionalização, volta a ser necessário voltar a discutir as potenciais soluções de divisão territorial e os seus fundamentos económicos, sociais, culturais e políticos, e a escolha das próprias cidades-capital. São essas problemáticas e este debate que este livro coletivo se propõe retomar, reclamando para tanto o contributo de um conjunto de académicos de várias formações científicas e sensibilidades político-sociais. Os destinatários da publicação serão, também, os académicos mas, igualmente, os decisores públicos e todos aqueles que, comprometidos com o desenvolvimento do país, olham para a reforma da sua organização político-administrativo como a grande reforma estrutural de que Portugal realmente carece. 

Livro a ser publicado pela UMinho Editora (https://editora.uminho.pt), em versão eletrónica, tendo como editor J. Cadima Ribeiro (jcadimaribeiro0@gmail.com). Os convites do editor para a produção de contributos sobre a forma de capítulos foram entretanto endereçados, estando a ter bom acolhimento.

Data para receção dos textos: 31 de março de 2023


segunda-feira, outubro 17, 2022

Book chapter: "Definition and Evolution of Creative Tourism: How Can It Contribute to the Sustainability of Territories?"

Abstract

This chapter pinpoints a chronological and thematic literature review on the concept of Creative Tourism. Even if the concept emerged 21 years ago, its definition keeps being discussed, and different approaches are available. Born in the late 1990s, it developed rapidly due to a very open, flexible and local context design, enabling the development of personal capacity, authentic experiences and involving local culture and communities. This new approach to tourism envisages bringing together local people, their habits and practices in real and everyday contexts to the heart of the tourism experience provided to visitors. Therefore, it looks to be a promising path towards sustainability. Keeping this in mind, one can wonder if Creative Tourism can be a lever for territories' economic, social, cultural and environmental sustainability. In particular, can Creative Tourism's growing importance in Southern Europe be considered a major contribution to the sustainability of those territories? The literature review concludes that most of the studies on Creative Tourism take positive impacts on territories as a kind of ‘belief’. Such an effect is not granted as a beneficial impact on a communities' well-being; it does not result just from the type of resources explored or from the participation of members of the community on the products/services supplied.


Creative Tourism and Sustainable Territories

ISBN978-1-80262-682-7eISBN978-1-80262-681-0

Publication date: 11 October 2022


quinta-feira, setembro 08, 2022

6º Congresso Internacional "Casa Nobre: um Património para o Futuro": apelo à submissão de comunicações

[Ex.mo(a) Senhor(a)​​​,

O Município de Arcos de Valdevez realizará nos dias 10, 11 e 12 de novembro de 2022, o VI Congresso Internacional subordinado à temática A Casa Nobre: Um Património para o Futuro, dando desta forma seguimento a um projeto consolidado de estudo da memória, arquivo, heráldica, genealogia, defesa e valorização do património construído, turismo e desenvolvimento regional, entre outros, num evento único nas suas características e assumidamente um dos fóruns principais de reflexão, estudo e debate sobre estas temáticas ao nível nacional e internacional.
Atrair e divulgar a investigação de qualidade em torno destes temas e problemáticas é o objetivo central de uma iniciativa que consegue ser, também, um exemplo de cooperação entre uma Autarquia, o Município dos Arcos de Valdevez, e Universidades, nacionais e estrangeiras, representadas através de vários docentes e investigadores.
Neste sentido, está aberta a call para receção de propostas de comunicação até ao próximo dia 15 de setembro. A inscrição no Congresso, com ou sem comunicação, deverá ser feita através de formulário em:

Toda a informação relativa ao VI Congresso Casa Nobre Arcos de Valdevez poderá ser consultada em:

Na expetativa do melhor acolhimento à divulgação do evento.
Com os melhores cumprimentos,

Pelo Secretariado,



Contactos:
6º Congresso Internacional "Casa Nobre: um Património para o Futuro"
Casa das Artes Jardim dos Centenários
4970-433 Arcos de Valdevez - Portugal

(reprodução de mensagem recebida, com a origem identificada)

domingo, agosto 21, 2022

ERSA 2022: "Residents’ perceptions of tourism impacts in the Azores Archipelago (Portugal): a cluster analysis"

 

J. Cadima Ribeiro

NIPE and School of Economics and Management, University of Minho, Braga, Portugal jcadima@eeg.uminho.pt

Laurentina Vareiro

UNIAG and Polytechnic Institute of Cávado and Ave, Barcelos, Portugal lvareiro@ipca.pt

Paula Remoaldo

  Lab2PT and Institute of Social Sciences, University of Minho, Guimarães, Portugal

paularemoaldo@gmail.com

Isabel Cristina Monjardino

SREA-Regional Statistic Service of Azores, Angra do Heroísmo, Portugal

isabel.cristina@ine.pt 

Abstract

The tourism industry has been increasingly looked at as an essential component of development processes, especially in the case of some low-density territories and islands. By its turn, looking at the quality of tourists’ experiences and, thus, to the success of a destination, one has to convey that residents play a fundamental role. In this research, a cluster analysis was used to segment the Azores Archipelago (Portugal) residents according to their perceptions of the impacts of the tourism industry. The clustering procedure analysed 950 data observations from a resident survey applied in 2018 by SREA (Regional Statistics Service of Azores). The analyses revealed the existence of three clusters: the Optimistic, integrating the large majority of the respondents; the Moderately Optimistic; and the Unconvinced. The results achieved follow what is common to find in the empirical literature, namely when dealing with emergent destinations. Regional and national authorities must be aware of these results when designing their policies, namely in pursuing a sustainable development strategy.

Keywords: Residents’ perceptions; Social Exchange Theory; Tourism Area Life Cycle; cluster analysis; tourism benefits and costs; Azores Islands (Portugal).

JEL codes:     Z32; R11; R58

Access to statistical data used in this scientific investigation was permitted within the scope of a Protocol signed on December 29th, 2014, between the Portuguese National Statistics Institute (INE), the Portuguese Foundation for Science and Technology (FCT), and the General-Board of Education and Science Statistics of the Portuguese Ministry of Science, Technology and Higher Education (DGEEC-MCTES).