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terça-feira, abril 22, 2025

Discorrendo brevemente sobre a realidade transmontana

1.1 Como caracteriza atualmente o mercado de trabalho em Trás-os-Montes?

A nível nacional, o mercado de trabalho tem apresentado uma taxa de desemprego que é geralmente considerada boa, pouco acima dos 6%, que, todavia, não permite perceber dois problemas maiores: por um lado, a escassez de trabalhadores que se regista nalguns setores de serviços (restauração e alojamento, particularmente), na construção civil, indústria transformadora e agricultura; e, por outro, as dinâmicas muito diferenciadas vividas em diferentes parcelas do território nacional.

Da primeira vertente decorre a necessidade geralmente reconhecida de se recorrer à imigração para dar resposta à procura de mão-de-obra existente. No que se reporta à segunda dimensão há que sublinhar que no caso da oferta de trabalho para algumas funções mais qualificadas ela só existe num número restrito de lugares, com especial destaque para a área metropolitana de Lisboa.

Trás-os-Montes sofre pela dimensão limitada do seu mercado de trabalho e pela fragilidade do seu tecido empresarial na indústria e serviços. Isso não dizer que a realidade seja a mesma em todo o território da região, parecendo ser que a parte mais a sul se apresenta menos dinâmica que a parte mais a norte, isto é, aquela que se usa designar por terra quente transmontana. Isso dever-se-á a alguma maior capacidade empreendedora e ao aproveitamento que vai sendo feito de alguns recursos desse território (azeite, castanhas, produtos da agro-pastorícia, tradições culturais locais e recursos ambientais potenciadores de aproveitamento turístico, nomeadamente), complementados pela maior capacidade de captação de estudantes por parte das estruturas de ensino superior aí sedeadas.

 

1.2 Quais considera serem os principais desafios económicos estruturais que esta região enfrenta, em especial na atração e fixação de emprego qualificado?

Não será fácil reverter as tendências de longo-prazo instaladas no território num quadro tendencial de perda demográfica e fragilização do tecido social e empresarial que lhe andam associados. A resposta, com dificuldades indiscutíveis de implementação e sempre demorada nos seus efeitos, deveria passar por políticas ligadas ao robustecimento da rede urbana regional, conforme propôs, entre outros, um antigo Secretário-de-Estado do ordenamento do território (Prof. João Ferrão), e pela alteração do modelo de governação da região, com criação de reais capacidades de decisão política-administrativa próprias.

Obviamente, isso também implicaria que se alterasse a estratégia de organização/gestão económica e política do território nacional continental, como um todo, e implicaria, nesse mesmo contexto, que se implantassem políticas de solidariedade territorial que fossem além do discurso público. Com essa estratégia, poder-se-ia tirar muito melhor partido dos recursos endógenos da região, que os tem, indubitavelmente.

 

2. Que fatores identificaria como determinantes para explicar o facto de Trás-os-Montes apresentar persistentemente um PIB per capita cerca de 20% abaixo da média nacional, bem como baixos salários e uma fraca taxa de atividade económica?

A resposta à questão agora enunciada foi, em grande medida, dada antes. Os salários pagos num território têm relação estreita com a procura de emprego aí registado e com o tipo de atividades que se desenvolvem, isto é, com a qualificação da mão-de-obra empregue. Sublinhe-se que não só os diferentes setores de atividade não pagam os mesmos salários como as atividades de topo em matéria de qualificações não estão uniformemente distribuídas por todo o país. Pelo contrário, estas últimas tendem a concentrar-se em poucas cidades do país, como já foi dito. O que se disse sobre a necessidade de alteração do modelo de governação e sobre a capacidade de atrair e fixar mais recursos humanos e económicos são peças basilares dessa alteração estrutural que se desejaria ver concretizar.

 

3. Que estratégias económicas ou políticas públicas considera essenciais para inverter ou atenuar a contínua saída de jovens formados da região transmontana?

Como procurei já deixar claro, as dimensões demográficas, sociais, económicas, políticas e, até, culturais têm estreita ligação entre si. Não é por acaso que Vila Real e Bragança elegem tão poucos deputados para a Assembleia da República. Elegendo poucos deputados, as realidades destes distritos eleitorais têm pouca auscultação nas instâncias de poder público nacionais e a respetiva capacidade reivindicativa sai muito enfraquecida. É sobre isso que importa atuar estruturalmente, conforme avancei antes. A saída contínua dos jovens é um sintoma não a causa do problema existente.   

 

4.  Identifica oportunidades concretas que poderiam ser aproveitadas para impulsionar o desenvolvimento económico sustentável nesta região, especialmente ao nível da valorização dos recursos locais?

Eu não subscrevo a ideia muitas vezes repetida que os problemas de fragilidade económica enfrentados por muitas regiões do país são resultado da ausência de recursos. Pelo contrário, em múltiplos casos, os recursos e as oportunidades de valorização económica desses recursos endógenos existem, o que não existe é capacidade empreendedora ou de projeto, e lideranças sociais e políticas, neste caso, pensando na necessidade da definição de estratégias para os territórios, no seu todo.

No caso de Trás-os-Montes, tive antes oportunidade de me referir a recursos como o azeite, a castanha, produtos da agro-pastorícia vários, tradições culturais locais e recursos ambientais potenciadores de aproveitamento turístico, assim  como à existência de instituições de ensino superior com capacidade de serem peça central na qualificação de recursos humanos e instrumentos de potenciação do aproveitamento e valorização dos recursos da região. Podia referir-me, também, ao vinho e ao enoturismo, à gastronomia tradicional, em muitos casos esquecida/desvalorizada, aos espaços naturais e respetivos potenciais económicos, se explorados dentro de princípios de sustentabilidade ambiental, económica e social, etc. Isto não se faz, no entanto, sem projeto e sem liderança (coletiva).

Para se chegar a esse projeto e a essa liderança importa, entretanto, mobilizar vontades e gente de diversas instâncias de intervenção social e, daí, partir para o ataque aos problemas existentes no território, percebidos a partir desse mesmo território.

 

5. Como vê o papel dos media regionais, especialmente dos meios digitais (jornais online, redes sociais locais), na promoção do desenvolvimento económico e social das regiões interiores como Trás-os-Montes? Considera que têm sido eficazes na valorização económica, cultural e territorial?

Eu não acompanho quotidianamente os media regionais de Trás-os-Montes e, portanto, não estou capaz de me referir à sua ação no levantamento dos problemas sentidos e no contributo que têm dado para a sua discussão e solução. Não tenho, no entanto, dúvida sobre o papel essencial que podem dar no trazer a público esses problemas e no espaço que podem reservar para um debate público alargado e continuado sobre como podem ser potenciados económica e socialmente os recursos existentes e, claro está, também a ajuda que podem dar para a visibilidade dos protagonismos e projetos que vão existindo e, daí, ajudar à formação de lideranças sociais e políticas locais e regionais.

Acresce que um projeto para o território, com a respetiva liderança social, tem que ter suporte num projeto de comunicação sólido e eficaz com os atores locais e populações do território, sob pena de lhes faltar a amarragem social de que precisam e, portanto, também, o alcance em matéria de contributo potencial para o desenvolvimento de Trás-os-Montes.  


Braga, 20 de abril de 2025

J. Cadima Ribeiro

sábado, setembro 30, 2023

Repescando um texto de 10/12/2020 que antecipa um outro (sobre um livro editado pelo mesmo autor) a apresentar nos próximos dias

 

https://ebooks.uminho.pt/index.php/uminho/catalog/book/12


“Economia do Esquecimento: rasgando o Estreito de Magalhães” (Paulo Reis Mourão, 2020, UMinho Editora, Braga)

Nota de apresentação

O estatuto da carreira docente universitária estabelece que os professores e investigadores universitários devem estruturar a sua ação em 3 dimensões: o ensino; a investigação científica; e a extensão universitária. Na sua progressão na carreira, estas 3 dimensões estão presentes, se bem que se admita que cada sujeito possa dar maior atenção a alguma ou algumas delas, por razões de perfil ou de estratégia pessoal.

Subscrevo essa exigência legal, que, obviamente, encontra suporte na ideia de que só pode transmitir conhecimento de forma eficaz quem, por força da investigação realizada ou da vivência associada à prestação de serviços à Comunidade, ganhou um certo domínio de uma área de saber e/ou competências técnicas específicas. Isso é particularmente válido quando nos situemos no ensino a nível de pós-graduação.

Eu, particularmente, tenho muita dificuldade em falar ou comentar uma realidade que me seja relativamente alheia, e rejeito fazer recomendações de planeamento ou de política sobre territórios que não conheço. No contexto dos projetos de extensão universitária de que fui encarregue ao longo da minha vida profissional, sempre rejeitei produzir relatórios e propostas de suporte de decisão política que não fossem suportados numa relação direta com os territórios concretos objeto de atenção e os seus principais atores, que obviamente têm que se identificar com elas e ser os protagonistas das ações projetadas.

Acresce que o professor e investigador universitário deve ser, também, um promotor de uma cidadania mais ativa e mais esclarecida, isto é, deve ser um exemplo de agente de desenvolvimento social e económico mais eficaz do que, porventura, outros agentes de desenvolvimento. Mais eficaz, digo, porque mais desapegado de motivações associadas a benefícios económicos e/ou políticos diretos. A minha noção de compromisso com a formação de cidadãos e com a extensão universitária que é reclamada ao professor universitário integra essa aceção de exercício de cidadania. Fui buscá-la a outros que me serviram de modelo.

Deixo estas considerações, já longas no contexto dos minutos que me estão reservados, para situar as considerações que farei de seguida, invocando o que escrevi e foi incluído na contracapa do livro do Colega e Professor Paulo Reis Mourão, que aqui está a ser apresentado publicamente hoje. Disse eu nessa contracapa, o seguinte:

´Economia do Esquecimento` é um livro que se lê num folgo não tanto por ser contido no número de páginas mas, antes, em razão das temáticas que endereça (desde logo, o desenvolvimento, percebido enquanto acesso das pessoas, nos seus lugares de residência, ao emprego e bem-estar social), e da fluidez da escrita e do compromisso que se percebe do autor com a sua região, Trás-os-Montes. 

Não se tratando de um romance, embora a forma como nos prende à leitura o pudesse sugerir, nem por isso deixa de nele haver espaço para a invocação de paradoxos, heróis e vilões, lamentando-se que não termine com um voto de esperança no futuro. [Se descremos do futuro que nos está reservado, que motivação vamos encontrar para lutar pela transformação do presente? Se descremos, como vamos transmitir ânimo, esperança às novas gerações?]

Embora devesse esperá-lo, acabei amiúde surpreendido pelo enunciar de “realidades” para as quais fui despertado há muitos anos, entre elas as de que “os custos de concentração” (no litoral) devem ser somados aos “custos do esquecimento” (do interior Transmontano, e não só), do que resulta óbvio que a superação ou mitigação de uns e outros só se conseguirá quando as atuações de política olharem, articuladamente, para uns e outros [os custos, pesados, da concentração no litoral, nas principais cidades, versus os custos do esquecimento, da desertificação humana, do interior, dos meios rurais. Usando palavras não muito diferentes, ouvi isso pela primeira vez há mais de 40 anos de um dos meus professores de licenciatura, o saudoso Professor António Simões Lopes].

Endereçando a problemática dos “caminhos do futuro”, concordo com o autor [Paulo Mourão] na necessidade dos atores do território se congregarem no estabelecimento de uma “estratégia de desenvolvimento”, ficando-me a dúvida se não devia também ter sublinhado que não há estratégia (de desenvolvimento) sem liderança, singular ou coletiva [quer dizer, lideranças regionais e locais efetivas].


J. Cadima Ribeiro


sábado, julho 15, 2023

Da revisão das NUTS II ao esboço de um princípio de desenho da regionalização de Portugal continental

As NUTS II 2024 dão origem a 

7 NUTS II no Continente, 

com evidência para a autonomização da Península de Setúbal 

da anteriormente definida Área Metropolitana de Lisboa, que assume a designação de Grande Lisboa

e a criação de uma outra unidade configurada pelo Oeste e Vale do Tejo (Oeste, Médio Tejo e Lezíria do Tejo), 

que implicou a redefinição, também, dos territórios afetos às NUTS II Centro e Alentejo.


 

sexta-feira, março 05, 2021

DESENVOLVIMENTO REGIONAL: DIFERENÇA ENTRE O LITORAL E O INTERIOR

         O índice sintético de desenvolvimento regional apresenta-nos uma visão geral do nosso território referente ao desenvolvimento na área da competitividade, coesão e qualidade ambiental.

Em 2018, de acordo com o INE, as zonas com o índice sintético de desenvolvimento regional mais elevado eram as áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto, Cávado, Aveiro e o Alto Minho, destacando-se que estas mesmas zonas se localizam junto a zona litoral do nosso território.

Tendo em conta os dados do INE, podemos aferir que, a nível da competitividade, destacam-se as áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto, Aveiro e Cávado. É notável um destaque, a nível da competitividade, na zona litoral face a zona interior.

Relativamente a nível de coesão, novamente vemos um destaque paras as áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto, Cávado e ainda a Região de Coimbra. Novamente, vemos um contraste entre a região litoral e o interior, localizado na zona norte e centro.

Relativamente à qualidade ambiental, e contrariamente aos índices anteriores, existe um destaque para as regiões interiores e para as regiões autónomas, realçando-se as Terras de Trás-os-Montes, Beira Baixa, Madeira, Alto Alentejo e os Açores.

“Tendo em conta” os dados anteriores, vemos uma grande discrepância entre a região litoral e interior a nível do desenvolvimento e das suas vertentes, mas também é notável a existência de desertificação humana de algumas regiões. Este problema é uma realidade que se vem a desenvolvendo ao longo dos últimos anos e caso não haja uma mudança tornar-se-á pior e com uma visibilidade maior. Esta desertificação humana e discrepância de desempenho entre a zona este e oeste do nosso território advém de muitos problemas, nomeadamente:

ü Existência de uma população envelhecida, provocada pela baixa natalidade. Este problema deve-se à migração dos jovens para o litoral;

ü Baixa atividade económica e falta de oportunidades de emprego. Em várias zonas, está presente apenas a atividade local, que em muitos casos é explorada por uma classe de meia-idade ou até mesmo idosa;

ü Falta de criação de infraestruturas novas e a falta de desenvolvimento das existentes, como, por exemplo, a implantação de universidades ou a criação de atividades estratégicas (Festivais, zonas turísticas, …);

ü As principais rotas e canais de exportação localizam-se no litoral. Deste modo, isso acrescenta uma despesa extra às empresas, no transporte até aos canais de exportação.

Mais de metade da população portuguesa reside na zona litoral. Devido a todos os fatores referidos anteriormente. Deste modo, existem variadas áreas de atuação de modo a tornar a ocupação do nosso território assim como o seu desenvolvimento mais uniforme. A meu ver, os modos de atuação são divididos em duas fases.

A primeira foca-se na criação de soluções que proporcionam um retorno dos jovens para as cidades do interior, e que estas sejam a escolha de muitas famílias como local de residência.

A segunda foca-se na criação de uma rede que envolve educação, saúde, empreendedorismo, entre outras vertentes, que proporcionem qualidade de vida e oportunidades semelhantes ou melhores às presentes no litoral.                                                                                         

Este problema já é discutido há alguns anos, e deste modo algumas medidas foram discutidas e implementadas, nomeadamente:

ü A  redução do IRC para as empresas que estiverem localizadas no interior do país, assim como a disponibilização de apoio noutras vertentes. Como, por exemplo, apoio à exportação dos produtos produzidos;

ü Apoios ou benefícios de modo a incentivar o investimento privado, criando empregos de qualidade e crescimento profissional, como, por exemplo, a facultação de ou baixo custo de terrenos para a implantação das empresas;

ü Apoio e benefícios para os casais com vários filhos, com o fim de aumentar a natalidade e a fixação no interior;

ü Disponibilização de um acesso facilitado à educação, saúde e passatempos/entretenimento.

Novas medidas devem ser tomadas, contudo deverá haver a conscientização da preservação da alta qualidade ambiental que existe na zona interior do território português. Se houver uma boa gestão das medidas impostas, em conjugação com o meio ambiente, acredito que futuramente haverá uma grande procura da zona interior como escolha de local de residência pois o interior possui algo que o litoral dificilmente adquirá, que é a Alta qualidade ambiental.

 

Silvana Manuela Ribeiro Dias


Bibliografia

https://www.brunobobone.com/o-desenvolvimento-assimetrico-portugues/


(Artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Urbana”, lecionada ao Mestrado Integrado em Arquitetura, da Escola de Arquitetura/UMinho)

quinta-feira, dezembro 10, 2020

“Economia do Esquecimento: rasgando o Estreito de Magalhães” (Paulo Reis Mourão, 2020, UMinho Editora, Braga)

 Nota de apresentação


O estatuto da carreira docente universitária estabelece que os professores e investigadores universitários devem estruturar a sua ação em 3 dimensões: o ensino; a investigação científica; e a extensão universitária. Na sua progressão na carreira, estas 3 dimensões estão presentes, se bem que se admita que cada sujeito possa dar maior atenção a alguma ou algumas delas, por razões de perfil ou de estratégia pessoal.

Subscrevo essa exigência legal, que, obviamente, encontra suporte na ideia de que só pode transmitir conhecimento de forma eficaz quem, por força da investigação realizada ou da vivência associada à prestação de serviços à Comunidade, ganhou um certo domínio de uma área de saber e/ou competências técnicas específicas. Isso é particularmente válido quando nos situemos no ensino a nível de pós-graduação.

Eu, particularmente, tenho muita dificuldade em falar ou comentar uma realidade que me seja relativamente alheia, e rejeito fazer recomendações de planeamento ou de política sobre territórios que não conheço. No contexto dos projetos de extensão universitária de que fui encarregue ao longo da minha vida profissional, sempre rejeitei produzir relatórios e propostas de suporte de decisão política que não fossem suportados numa relação direta com os territórios concretos objeto de atenção e os seus principais atores, que obviamente têm que se identificar com elas e ser os protagonistas das ações projetadas.

Acresce que o professor e investigador universitário deve ser, também, um promotor de uma cidadania mais ativa e mais esclarecida, isto é, deve ser um exemplo de agente de desenvolvimento social e económico mais eficaz do que, porventura, outros agentes de desenvolvimento. Mais eficaz, digo, porque mais desapegado de motivações associadas a benefícios económicos e/ou políticos diretos. A minha noção de compromisso com a formação de cidadãos e com a extensão universitária que é reclamada ao professor universitário integra essa aceção de exercício de cidadania. Fui buscá-la a outros que me serviram de modelo.

Deixo estas considerações, já longas no contexto dos minutos que me estão reservados, para situar as considerações que farei de seguida, invocando o que escrevi e foi incluído na contracapa do livro do Colega e Professor Paulo Reis Mourão, que aqui está a ser apresentado publicamente hoje. Disse eu nessa contracapa, o seguinte:

´Economia do Esquecimento` é um livro que se lê num folgo não tanto por ser contido no número de páginas mas, antes, em razão das temáticas que endereça (desde logo, o desenvolvimento, percebido enquanto acesso das pessoas, nos seus lugares de residência, ao emprego e bem-estar social), e da fluidez da escrita e do compromisso que se percebe do autor com a sua região, Trás-os-Montes.

Não se tratando de um romance, embora a forma como nos prende à leitura o pudesse sugerir, nem por isso deixa de nele haver espaço para a invocação de paradoxos, heróis e vilões, lamentando-se que não termine com um voto de esperança no futuro. [Se descremos do futuro que nos está reservado, que motivação vamos encontrar para lutar pela transformação do presente? Se descremos, como vamos transmitir ânimo, esperança às novas gerações?]

Embora devesse esperá-lo, acabei amiúde surpreendido pelo enunciar de “realidades” para as quais fui despertado há muitos anos, entre elas as de que “os custos de concentração” (no litoral) devem ser somados aos “custos do esquecimento” (do interior Transmontano, e não só), do que resulta óbvio que a superação ou mitigação de uns e outros só se conseguirá quando as atuações de política olharem, articuladamente, para uns e outros [os custos, pesados, da concentração no litoral, nas principais cidades, versus os custos do esquecimento, da desertificação humana, do interior, dos meios rurais. Usando palavras não muito diferentes, ouvi isso pela primeira vez há mais de 40 anos de um dos meus professores de licenciatura, o saudoso Professor António Simões Lopes].

Endereçando a problemática dos “caminhos do futuro”, concordo com o autor [Paulo Mourão] na necessidade dos atores do território se congregarem no estabelecimento de uma “estratégia de desenvolvimento”, ficando-me a dúvida se não devia também ter sublinhado que não há estratégia (de desenvolvimento) sem liderança, singular ou coletiva [quer dizer, lideranças regionais e locais efetivas].

 

J. Cadima Ribeiro

 

segunda-feira, abril 22, 2019

Turismo português: o retrato nacional

O Turismo em Portugal tem sido, desde o início da crise de 2008, o verdadeiro impulsionador económico nacional e que, em certa medida, continua a desenvolver economicamente o país. Surgiram e desenvolveram-se bastantes negócios com vista a criar oferta turística, e negócios com sucesso, diga-se de passagem. Devido ao aumento frequente da procura do turismo por terras lusitanas, a oferta criada tem sido bem encaixada pelo lado da procura. Para confirmar o facto observa-se o número de dormidas nos alojamentos turísticos por 100 habitantes: em 2008, observavam-se 377 dormidas e, em 2017, já se ultrapassavam as 634 dormidas. Aumentou-se bastante a oferta e a procura respondeu devidamente.
Mas mesmo com aumento da oferta a procura é, algumas vezes, demasiada para a oferta existente. Note-se que, por exemplo, o rendimento médio por quarto dos alojamentos turísticos portugueses era, em 2006, de cerca de 28 euros, ao passo que em 2017 o valor médio já se situava em cerca de 46 euros e 20 cêntimos, quase o dobro passado 11 anos, existindo nos alojamentos turísticos nacionais, taxas de ocupação anuais (dados de 2017) acima dos 75% quando em 2006 rondava os 50% (fonte dos dados estatísticos: PORDATA e Turismo de Portugal). Assistiu-se, portanto, a um aumento generalizado da oferta, a um aumento dos preços e a um aumento favorável da procura, que sustentou todo este crescimento económico.
Contudo, e apesar do sucesso, surge uma problemática que afeta muitos portugueses. O problema que se levanta é o centrismo associado ao turismo nacional, que tem que ver com o destaque nacional do turismo em três pontos-chave no nosso território: as áreas metropolitanas de Lisboa, do Porto e o Algarve (embora o terceiro com um grau de sazonalidade bastante mais evidente que os anteriores).
Observando os proveitos totais anuais dos estabelecimentos hoteleiros nacionais (rendimentos obtidos com dormidas, refeições, etc.) denota-se a forte incidência das três zonas anunciadas anteriormente. Na área metropolitana de Lisboa e no Algarve, os proveitos, em 2017, ultrapassavam os mil milhões de euros cada (1 151 787 000 euros e 1 078 233 000 euros, respetivamente), ao passo que a área metropolitana do Porto registava proveitos no valor de 322 milhões de euros, abaixo das primeiras dos NUTS III mas, comparado com o resto do território nacional, registava proveitos bastante elevados.
No resto do território nacional, os valores mais altos situavam-se nos 60 milhões de euros, em 2017, o que mostra a diferença para com os focos identificados. Se esta vaga turística fosse uniformemente distribuída por todo o território nacional, o problema seria inexistente, mas surgiriam outros problemas, pois não existe oferta suficiente nem capacidade urbana noutros pontos do país para receber um aumento tão grande de turistas.
Mas esta capacidade de albergar tanto turista nestes três núcleos faz com que os residentes dessas zonas sofram com alguns problemas. Dentro desses problemas, surgem os congestionamentos das estradas e dos transportes públicos, muitas vezes sem capacidade de mobilizar tanto público. Para além disso, a crescente especulação imobiliária faz com que se torne incomportáveis os valores das rendas impostas, assim como o valor de venda das casas. Os preços praticados nos restaurantes das zonas e nos estabelecimentos, como bares e cafés, são também um fator de queixa, pois torna-se bom para o país subir os preços conforme o aumento da procura turística, mas o poder de compra dos residentes não aumenta no mesmo grau e torna-se difícil acompanhar todas estas subidas.
Surgem outros problemas associados, embora com menor grau de importância, mas não exatamente sem importância, que são: o ruído, a perda de identidade da região, perda de costumes, o afastamento das tradições em detrimento de outras atrações mais “favoráveis”, etc. São problemas evidentes e que têm surgido nos últimos anos no primeiro plano de discussão, pois são cada vez mais as queixas e os incentivos à regulação destes problemas.
Todos concordamos acerca de quanto é necessário o turismo para desenvolver a economia e todos nós observamos o impacte macroeconómico evidente em tempos de crise, quando todos desesperávamos por algum motor económico. Mas terá surgido agora um problema maior que se impõe e que faça do tão adorado turismo um pau de dois bicos? Temos de ordenar o território em função do crescimento do turismo. Não estávamos devidamente preparados para uma crescente afluência e sofremos agora com essa não-preparação. Devemos e podemos apoiar o turismo. Foi e é motor de desenvolvimento, mas temos de nos preparar para o receber. Não é uma tarefa que se faça exclusivamente com o aumento da oferta, mas com a preparação da oferta em questões territoriais. Somos uma nação capaz de se desenvolver ainda mais nesse sentido, mas temos uma imagem a manter e a nossa identidade não pode perder a marca que tem. Venha o crescimento sustentável.

João Pedro Sá

(Artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia do Turismo”, de opção, lecionada a alunos de vários cursos de mestrado da EEG, a funcionar no 2º semestre do ano letivo 2018/2019)

segunda-feira, março 18, 2019

FESTA DA TAÇA: quem joga em casa? Ninguém!

O futebol! É inegável o papel do futebol na sociedade portuguesa. Podemos não gostar ou nem ligar muito a ele mas o que é certo é que ele está presente e faz parte de nós. Portugal possui os melhores jogadores, os melhores treinadores, o melhor manager e o presidente mais titulado do mundo. De facto, arrisco-me a dizer que o futebol, como um todo, é uma das componentes identitárias de maior relevância da sociedade portuguesa. Posto isto, é com muita pena que reflito sobre o tema que venho expor hoje aqui.
O futebol moderno é cada vez mais voltado para os grandes negócios e interesses económicos. Isso não tem mal nenhum, aliás, se se puder utilizar o futebol como forma de criar riqueza, emprego e desenvolvimento, pois bem, que assim seja. O que infelizmente ocorre, fruto desse futebol moderno, é uma série de acontecimentos que, quanto a mim, são a antítese do que deveria ser o futebol.
Todos sabemos que a Taça de Portugal é uma das competições nacionais de futebol e tem um regulamento associado. O regulamento da Taça de Portugal determina que os clubes da I Liga têm que jogar, “obrigatoriamente”, a terceira eliminatória da taça na qualidade de visitantes, ou seja, no campo do clube de um escalão inferior. Esta norma possui um objetivo e um princípio claros: “Levar a festa da Taça e as principais equipas do futebol português a zonas do país onde, normalmente, apenas são vistas pela televisão e equilibrar os pratos de uma balança que pende sempre para o lado dos mais fortes.”[1]
Porém, não fossem as condicionantes atreladas a este princípio tão nobre, tudo seria perfeito. Refiro-me às caraterísticas técnicas do recinto de jogo, ou seja, fraca iluminação, pouca segurança (inexistência de torniquetes), a inexistência de cadeiras na bancada e balneários, que comprometem o conforto, o relvado, que não pode ser pelado e sem as dimensões mínimas exigidas, já para não falar das condições necessárias à segurança dos jogadores, pelo menos dos da equipa da I Liga, que valem milhões…
        Caso estes condicionalismos se verifiquem, a realização do jogo fica inviável, e é determinado um novo recinto de jogo. Assim, nenhuma das equipas envolvidas na partida jogará em casa.
        Ora, e aqui é que reside a razão para este artigo de opinião. A inviabilização do jogo no terreno de jogo do clube mais modesto “belisca o espírito da competição mais democrática do calendário nacional”. Para além disso, quanto a mim, a não realização do jogo tem outro tipo de implicações, nomeadamente económicas e de desenvolvimento, a saber:
i)              o facto de os clubes “grandes” jogarem na casa do clube mais modesto possibilita a dinamização económica, social e cultural da localidade do clube “pequeno”, isto porque o clube “grande” mobiliza um grande número de adeptos que durante um dia vão a um território (uma cidade ou vila) para ver um jogo de futebol, e em muitos casos conhecer esse território;
ii)            a localidade (concelho/cidade/vila) perde a oportunidade de se dar a conhecer a um numeroso grupo de pessoas que poderiam regressar um dia no futuro, não como adeptos de futebol mas como turistas.  Ou seja, durante tempo de intervalo do jogo e antes e depois do jogo, a localidade poderia dar-se a conhecer, através da realização uma pequena mostra turística e também através da exposição de cartazes publicitários no estádio com eventos e produtos regionais de interesse;
iii)         a localidade do clube “pequeno” perde a oportunidade de se desenvolver, nomeadamente ao nível dos equipamentos desportivos (veja-se o exemplo de Vila Real, que ficou com um recinto desportivo com melhores condições graças à ajuda de um clube “grande”, que fez de tudo para que o jogo se realizasse em Vila Real)[2], aliás, este exemplo, na minha opinião, deveria ser replicado em jogos semelhantes.  
        Em suma, o futebol, sendo um desporto apaixonante, que mobiliza milhares e milhões, poderia ser um meio para o dinamização e de desenvolvimento das localidades.

Jorge Garrido

(Artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “economia e Política Regional”, do curso de Mestrado em Geografia do ICS, a funcionar no 2º semestre do ano letivo 2018/2019)

quarta-feira, março 13, 2019

Impacto do Brexit no turismo português

O Brexit, sendo um dos principais tópicos de discussão da atualidade no que concerne ao futuro da coesão europeia com o Reino Unido, é um movimento de ruptura de ligações que poderá ter impacto em vários setores nacionais, sendo um deles o do Turismo.
Como se sabe, a aliança entre Portugal e Reino Unido é a mais antiga aliança internacional em vigor, que já data do século XIV, mantendo uma conexão setorial forte em várias frentes, que influenciam a vida quotidiana de ambas as populações.
Portugal tem de refletir e preparar um plano de contenção que defenda os seus interesses económicos caso o Reino Unido avance com este corte de relações, para definir ações realistas e eficientes. Para tal, já foi aprovado um “Plano de Contingência Brexit”​, caso exista uma saída sem acordo, onde foram delineadas várias medidas para ultrapassar potenciais barreiras e incentivar o turismo, tais como: a promoção turística de Portugal no RU e atração de investimento; o apoio às empresas nos setores económicos mais expostos ao Brexit; a criação de um canal informativo no VisitPortugal.com; a monitorização dos fluxos turísticos do R. Unido e do seu impacto; articular medidas que assegurem aos cidadãos britânicos que viajam para Portugal (em caso de não Acordo) mantenham as condições de viagem; utilização do serviço nacional de saúde; validade dos contratos de seguros; reforço dos meios consulares ao dispor dos portugueses residentes no R. Unido; e a garantia do respeito por todos os direitos dos britânicos residentes em Portugal.
Acredito que os setores económicos e o país, em geral, devem estar preparados, e fazer os possíveis para minimizar o impacto de uma potencial saída. Isto não significa que a realidade seja já “negra”, pelo contrário, a positividade dos números/estatísticas falam por si, uma vez que o mercado turístico do R. Unido para Portugal continua em crescimento. Apenas temos de preservar a nossa capacidade de atracão turística e ao mesmo tempo continuar a fortalecer as ligações entre os dois países.
O Turismo é o principal setor exportador de Portugal para o R. Unido, com receitas que atingiram 2004 milhões de euros em 2015, representando 29% do total das exportações. Os números são coerentes com o facto de o R. Unido ter ocupado, em 2015, o primeiro lugar nos principais índices do turismo internacional em Portugal.
Os últimos dados oficiais do Banco de Portugal mostram que, nos primeiros três meses de 2018, as receitas turísticas geradas pelo R. Unido chegaram aos 374,8 milhões de euros, 6,2% acima do mesmo período de 2017. Também é certo que não se pode falar de turismo em relação ao R. Unido sem referir o peso do Algarve. Cerca de 1500 milhões de euros das receitas externas geradas pelos turistas britânicos em Portugal ocorreram nesta região, aumentando a responsabilidade do Algarve na economia portuguesa e na formação do saldo positivo da Balança comercial. As outras regiões com um peso significativo de turistas britânicos são a Madeira e Lisboa (20% e 8,5% das dormidas no país).
Com base nas declarações de representantes de cadeias de hotéis e de organizações relacionadas com o turismo em Portugal, cheguei à conclusão que temos de ser cirúrgicos nas medidas a implementar, sendo que estas devem ser focalizadas em pontos específicos. As estratégias não passam necessariamente por descer os preços nos serviços para fomentar a procura, apesar da desvalorização da libra, mas sim criar condições para os britânicos continuarem a visitar o país.
As companhias aéreas devem apostar em voos diretos e low cost, devem-se promover programas especiais que envolvam as entidades e os empresários do setor turístico, alargar a atividade turística ao longo do ano, em todo o território nacional, através de eventos e atividades dinamizadoras das regiões, como meio de diversificação e descentralização da procura. Mas, primordialmente, deve reforçar-se a ligação com a comunidade inglesa residente e encontrar soluções que facilitem o interesse pelo destino, a estadia e o investimento, numa perspetiva de confiança.
A meu ver, com base na instabilidade política em terras britânicas, seria um erro Portugal limitar-se à especulação opinativa à espera que os tempos sejam continuamente áureos.  

Nuno Miguel Correia Rodrigues

(Artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia do Turismo”, de opção, lecionada a alunos de vários cursos de mestrado da EEG, a funcionar no 2º semestre do ano letivo 2018/2019)

domingo, abril 22, 2018

O Processo de desmetropolização e desconcentração industrial brasileiro e o crescimento das cidades médias

Após as primeiras Revoluções Industriais ocorreu, paralelamente, o processo de urbanização que contribuiu para densificar as cidades, principalmente as europeias que, entre outros atributos (inclusive simbólicos e culturais), ganharam também notoriedade econômica, produtiva e administrativa. Isso aconteceu, marcadamente, com as que concentraram o fenômeno da industrialização que irradiou para as áreas contíguas, transformando invariavelmente o Espaço geográfico. Os países que sediaram o desenvolvimento da indústria foram, consequentemente, os que primeiro testemunharam o surgimento das metrópoles.
No segundo quartel do século XX, verificou-se um relativo e contínuo esvaziamento ou desconcentração industrial e, consequentemente, populacional das grandes cidades mundiais, tais como Londres e Paris, entre outras. Visto que o solo urbano passou a ter um valor econômico e simbólico de uso e de troca, essa tendência nomeou-se “desmetropolização”, já que as cidades pequenas e médias do entorno imediato passaram a sediar algumas dessas atividades industriais, e o preço mais acessível da terra atraía uma significativa parcela da população menos solvável.
No Brasil, esse processo passou a ser mais perceptível a partir da década de 1980, visto que vários fatores econômicos, políticos e culturais atuaram juntos, sendo claramente tutoriados pelo Estado, por meio de políticas públicas de incentivos fiscais, doações de terras, entre outras estratégias para que as grandes corporações e conglomerados industriais ocupassem os terrenos das cidades menores, ainda que estas mantivessem uma forte relação de dependência com as suas metrópoles.
A região Sudeste do Brasil foi o lócus geográfico e histórico privilegiado para a implantação efetiva dos parques industriais, que datam do início do século XX, sobretudo após a crise global de 1929. Sem alternativa, coube ao Estado utilizar as infraestruturas já existentes, que atendiam a economia cafeeira, sobretudo incrementar e ampliar as suas redes de comunicações, tornando-as mais eficazes para atender às necessidades produtivas da indústria. Dessa forma, o embrião experimental do parque industrial brasileiro consubstanciou-se nos centros urbanos das duas maiores cidades do país: Rio de Janeiro e São Paulo.
A primeira sediava o poder governamental republicano e com isso tinha a capacidade de ser um pólo de atração migratório, constituindo um largo bolsão de mão-de-obra disponível e barata. Também por ser uma cidade portuária, havia uma constante necessidade de trabalhadores braçais sem qualificações técnicas a não ser a força muscular.
Já a segunda cresceu economicamente à custa da cultura do café e, portanto, detinha as melhores redes de infraestrutura do país. Consonante à queda da economia agrária no mercado interno e global, a cidade transformou-se no mais bem sucedido polo industrial do Brasil e, algumas décadas após a sedimentação dos parques produtivos nesse perímetro urbano, deu origem a uma clássica aglomeração industrial, consolidando um vetor contínuo de captação migratório.
Esse fator remodelou multifacetadamente não só o Espaço Geográfico mas também impôs ao Planeamento Urbano uma constante reorganização e avaliações periódicas das intervenções espaciais; estas, realizadas em favor da ampliação horizontal e vertical do processo de urbanização, que atendia fundamentalmente as indústrias. Nesse sentido, as cidades deveriam ser funcionais, porém o ônus foi o Inchaço Urbano, que, dentre outras consequências, ampliou as desigualdades sociais e incrementou a favelização e a degradação ambiental (SANTOS, 2003).
Após a década de 1980, o processo de conurbação integrou, mesmo que parcialmente, as áreas mais distantes, futuramente nomeadas de Regiões Metropolitanas ao CDB (Central Business District), pois a dialética do Espaço brasileiro não se furtou em seguir, com algumas restrições, a lógica global, sobretudo o modo de produção do Capitalismo Ocidental, cuja desmetropolização dotou as cidades médias de infraestruturas viárias, de parques industriais e, consequentemente, ampliou a densidade demográfica e o tecido urbano.
Esse processo, que desterritorializou as grandes indústrias das áreas centrais do Sudeste brasileiro, criou novas perspectivas espaciais junto ao Planeamento Urbano, cujo conceito geográfico de Regionalização passou a ser discutido em âmbito acadêmico e técnico quanto à sua eficácia, eficiência e abrangência (VILLAÇA, 1998). Após a dispersão das grandes corporações para as áreas metropolitanas, a mancha urbana conurbada ainda concentra atualmente no Sudeste brasileiro 41% do total da população, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Entretanto, Santos (2003) ilumina a Geografia com o conceito de MTCI (Meio Técnico Científico e Informacional), criado a partir do casamento da técnica com a ciência. Não obstante as transformações espaciais vividas pelo Brasil no período, as grandes cidades foram especializando-se em serviços que atendiam ao setor terciário da economia, em detrimento das novas áreas industriais mais distantes dos centros urbanos.
Com o advento da aplicação das novas tecnologias robóticas e da automação no setor produtivo, a inovação no sistema de transporte de massa e de carga, a difusão técnica de comunicação material e imaterial e a implantação de novas áreas portuárias especializadas, entre outros, reconfigou-se a ideia clássica da localização industrial. Tais mecanismos foram decisivos para que as outras macrorregiões do Brasil também fossem beneficiadas por esses transbordos.
Atualmente, a noção de arquipélago econômico, que acompanhou o país desde a colonização até aproximadamente a década de 1970, foi em certa medida descaracterizado pelas iniciativas públicas nas mais diferentes instâncias, promovendo inclusive a guerra fiscal entre as cidades e os estados federativos, cujo êxito foi a mobilidade industrial no território nacional em busca de vantagens comparativas, mas que ainda faz permanecer, mesmo que em menor escala, uma marca da desigualdade de acesso aos bens e consumos dependendo da localização geográfica.

Hércules Paes Lima

Bibliografia

ABREU, Maurício de Almeida. A evolução urbana do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: IPLANRIO/Zahar, 1987.

ABREU, Maurício de Almeida. Reconstruindo uma história esquecida: origem e expansão inicial das favelas do Rio de Janeiro. São Paulo, Espaço e Debates, v. 14, n. 37, 1994.

AZZONI, R. C.; SOBRINHO, E. M. G. Aglomerações industriais relevantes do Brasil. São Paulo: Nereus, 2014.

BENCHIMOL, Jaime Larry. Pereira Passos: Um Haussmann Tropical. RJ. Editora Carioca.1990.

BORGES, Marília Vicente. O zoneamento na cidade do Rio de Janeiro: gênese, evolução e
aplicação. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) - Instituto de Planejamento
Urbano e Regional. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2007.

CAMPOLINA, B.; REZENDE, A. C.; PAIXÃO, A. N. Clusterização e localização da indústria de transformação no Brasil entre 1994 e 2009. In: SEMINÁRIO DE DESENVOLVIMENTO REGIONAL, ESTADO E SOCIEDADE, 1., 2012, Rio de Janeiro. Anais... Rio de Janeiro: Sedres, 2012.

CASTELS, Manuel. (2002). A sociedade em rede. (A Era da Informação: economia, sociedade e
cultura; vol.1). São Paulo: Paz e Terra. 2a. ed. Revista.

CHOAY, Françoise. O Urbanismo: utopias e realidades. Uma antologia. S. Paulo: Perspectiva,
1992.

FRIDMAN, fania. Donos do Rio em nome do rei: Uma história fundiária da cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Ed. Garamond, 1999.

REZENDE, Vera. Evolução da produção urbanística na cidade do rio de janeiro (1900-1950-1965) in: Anais do V seminário de história da cidade e do urbanismo. Campinas: PUCCampinas, 1998.

SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção.São Paulo: HUCITEC, 1996.

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único; 6ª Ed. Rio de Janeiro: Record, 2003.

SANTOS, Milton. A Urbanização Brasileira. Ed; HUCITEC. São Paulo. 1993.

VAZ, Lilian Fessler. Modernidade e moradia: habitação coletiva no Rio de Janeiro, séculos XIX e XX. Rio de Janeiro: 7 letras / FAPERJ, 2002.

VILLAÇA, Flávio. Espaço intra-urbano no Brasil. São Paulo: Studio Nobel, Fapesp, Lincoln Institute, 1998.

WWW.ibge.org.br

(Artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “economia e Política Regional”, do curso de Mestrado em Geografia do ICS, a funcionar no 2º semestre do ano letivo 2017/2018)

segunda-feira, março 19, 2018

As disparidades entre os Municípios de Amares e de Braga

     Portugal, apesar de ter uma dimensão pequena, ainda apresenta várias desigualdades acentuados ao longo do território. Estas disparidades são refletidas tanto a nível económico, como a nível social e de meios de transportes. Muitas vezes pensamos que as disparidades só existem no interior. Mas acontecem disparidades entre Braga e o Município de Amares. Muitas das vezes, para as áreas mais rurais só existem meios de transporte de hora em hora nos períodos escolares. Quando as crianças se encontram de férias o tempo de espera já é mais longo.
         Embora o Município de Amares fique afastado mais ou menos 30 Km de Braga, considerando a última freguesia que é Bouro Santa-Maria, as áreas são predominantemente rurais e a população mais envelhecida encontra-se depois da Vila de Amares. Esta população mantém níveis de analfabetismo muito elevados e não tem acesso ao serviço médico nem uma vez por semana nas suas freguesias. A farmácia mais perto é em Amares. O centro de saúde de Amares não consegue acolher todos os utentes, principalmente durante o inverno, mandando-os assim para o hospital central. Muitas das vezes, estes mesmos idosos não têm meios de transportes diretos ao hospital e optam para ir outra vez para casa doentes.
         Os motivos que levaram a maior parte dos jovens a sair destas aldeias, muitas das vezes, é por estas ficarem longe dos bens essenciais. As crianças também têm que se deslocar para Centro Escolar de Amares. Muitas das vezes, estes jovens emigram para outros países à procura de uma vida melhor ou, alternativamente, mudam-se para Braga.
         No Município de Amares também não se encontram muitas ofertas de emprego. Devido à crise, muitas empresas fecharam. Uma das maiores empregadoras de construção civil, os Eusébios, em Amares, foi a falência com a crise.
         Para não ter uma discrepância tão grande entre o Município de Amares e o de Braga seria necessário criar meios de transportes que levassem a população mais envelhecida às consultas nos hospitais, diretamente, dar incentivos às empresas para se localizar neste Município e dar prioridade aos residentes do município nas ofertas de trabalho quando estas se encontrassem no próprio município.
        Amares também poderia viver muito do seu turismo, já que apresenta patrimónios histórico, cultural e paisagístico muito valiosos. Temos uma Aldeia de Portugal, chamada Urjal, onde temos muitos moinhos e azenhas. Temos também vários produtos típicos de Amares em termos gastronómicos e vinhateiros aos quais poderíamos fazer várias visitas guiadas durante todo o ano. Poderíamos dar mais vitalidade à população envelhecida usando o know-how desta população para ensinar os mais jovens a valorizar a cultura de Amares.
         Amares, se fosse bem planeado em termos turísticos, gastronomia, festividades, poderia fixar mais jovens e trazer outras pessoas para se fixarem. Para tanto, importaria não fazer isto de período sazonal, mas ao longo de todo o ano. Importaria dar uma maior vitalidade a este município e dar melhores condições de vida aos nossos idosos, os quais se encontram afastados de quase tudo.

Maria da Conceição Veloso Cerdeira

(Artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia e Política Regional”, do curso de Mestrado em Geografia do ICS, a funcionar no 2º semestre do ano letivo 2017/2018)