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quinta-feira, maio 02, 2024

Sustainable Development of Territories in Contexts of Uncertainty: External Shocks and Risks

Abstract

 The pursuit of development has increasingly prioritized sustainability. Sustainable approaches to development and adopting people’s well-being as a main goal have substantial implications for the competitiveness of territories. When viewed through a nature lens, sustainability maintains a close connection with circular economy. If sustainability is the paradigm the world needs to commit to, businesses, policy makers and people have to deal with the difficulties and uncertainties arising from those requirements and other severe phenomena, like international armed conflicts and pandemic crises. By using case studies, this book addresses territorial bottlenecks and grapples with social and developmental challenges. The book intends to function as a practical guide for policymakers and practitioners, providing them with the knowledge necessary to adopt and implement sustainable development strategies. It advocates the implementation of socially inclusive policies and the adoption of innovative governance models able to safeguard democratic principles while enhancing the efficacy of decision-making processes.


(Abstract of book to be published soon by Cambridge Scholars Publishing, Edited by

José Cadima Ribeiro, Paula Remoaldo, Flávio Nunes, Hélder Tiago Lopes, and Laurentina Vareiro)

  

sábado, janeiro 07, 2023

Do baú de memórias de um professor universitário: "Produtos regionais e desenvolvimento"

   Desde os anos 80 do século XX que é relativamente consensual entre os estudiosos do desenvolvimento que as grandes empresas não constituem o único motor do crescimento económico. Este resultado decorre, em grande medida, da constatação de que havia/há um número crescente de pequenas empresas de iniciativa local, algumas vezes localizadas em regiões rurais, que laboram produtos regionais de elevada qualidade, que colocam nos mercados nacionais e externos. O sucesso dessas empresas tira proveito, amiúde, da preservação de certas tradições em matéria de produtos típicos desses territórios (produtos regionais), isto é, a diferenciação da sua oferta e a competitividade que conseguem vêm-lhes da singularidade dos produtos que produzem e/ou comercializam.

Quer isso dizer que as especificidades das regiões, associadas às suas histórias, geografias e culturas, podem ser mobilizadas para qualificar os bens e serviços que oferecem. Assim sendo, é expectável que as empresas locais usem as referências territoriais para incrementar o valor dos seus produtos e sustentar a respectiva diferenciação face aos competidores. Para que essa estratégia obtenha sucesso é necessário que a procura, (isto é, os consumidores) valorize(m) a qualidade desses produtos e que, a nível de oferta, haja quem perceba a oportunidade de negócio que esses bens encerram e seja capaz de estruturar o projecto empresarial que a materialize.

Tal também significa que não basta ter ideias. É preciso que as ideias sejam secundadas por capacidade de realização e de estabelecimento de uma estratégia de mercado conveniente. A este nível, note-se que estão longe de ser despiciendas aspectos aparentemente tão elementares quanto o são a embalagem, a etiqueta e a marca que se usam.

Peça basilar neste processo é a possibilidade de tirar partido de Designações de Origem Protegida ou figuras legais similares, que protegem certos produtos típicos regionais de usos abusivos. Essa protecção, aparte impedir a apropriação por operadores externos ao território do produto em causa, garante-lhes a reputação (imagem) junto dos consumidores, ao obrigar os respectivos produtores ao uso dos ingredientes e dos procedimentos de fabrico e de conservação configurados pela tradição.

Um exemplo de aproveitamento comercial de um produto típico de uma das regiões portuguesas é o da Queijos Matias. Este caso também ilustra a relevância da estratégia de negócio e do funcionamento em rede.

A empresa de cariz familiar Queijos Matias, Lda., localizada em Seia, é um pequeno produtor de queijo da Denominação de Origem Protegida (DOP) Serra da Estrela, que comercializa os seus produtos sob a marca Casa Matias, sobretudo. Esta actividade faz parte de uma tradição de família, que há mais de dois séculos se dedica à produção de queijo da Serra.

Este tipo de queijo é produzido a partir de leite de ovelha, por processos tradicionais, o que lhe confere características próprias. Além da preservação dos métodos tradicionais de fabrico do queijo, os rebanhos da empresa são constituídos exclusivamente por ovinos da raça Bordaleira, que é conhecida por ser “a raça nacional de melhor aptidão leiteira”. Todos os dias efectuam a ordenha, da qual é feita uma selecção criteriosa do leite.

O crescimento da empresa tem sido prosseguido através da conquista de pequenos nichos de mercado, baseado na aquisição, em 1992, do certificado de produto oriundo de região com Denominação de Origem Protegida. Hoje em dia, no mercado nacional, a Queijos Matias, coloca a sua produção sobretudo em super e hipermercados (Carrefour, Continente, Makro e El Corte Inglês, entre outros), sob as suas próprias marcas ou as das cadeias retalhistas com que opera. A relação mantida com o Grupo Carrefour, “que comercializa 40% da produção total”, viabilizou que a firma pudesse vender o seu queijo também nos mercados externos, nomeadamente em Espanha, França e Brasil. Actualmente, comercializa o seu produto também nos Estados Unidos, em Itália, no Luxemburgo, na Suiça e no Japão.

Em 2001, na sequência do crescimento do negócio, a Queijos Matias decidiu estabelecer uma parceria com 25 outros produtores da região DOP, por forma a ter acesso à respectiva produção leiteira, o que lhe permitiu alcançar, no ano de 2004, uma produção do queijo Serra da Estrela de 50 toneladas.

Um impulso importante para a expansão da empresa e a divulgação dos seus produtos no mercado internacional foi a participação em várias feiras e concursos internacionais. Além disso, “a Casa Matias foi a primeira empresa portuguesa a aderir ao movimento Caseus Montanus, entidade com sede em Itália e que se dedica a preservar, manter e divulgar os queijos de montanha europeus”.

A diversificação do negócio está a ter lugar através da abertura de uma casa de Turismo no Espaço Rural. Para além de albergar os turistas, a Casa Matias possibilita o contacto com a actividade pastorícia e com o processo de fabrico de queijo.


J. Cadima Ribeiro

jcadima@eeg.uminho.pt


(Texto publicado no Diário do Minho, em 2007/06/25)


quarta-feira, março 24, 2021

Alojamento Local

Com o elevado aumento do turismo que pudemos ver em Portugal, assistimos também a uma maior oferta e diversificação do alojamento. Entre estas ofertas, quero destacar o alojamento local.

Esta modalidade, que começou por ser apenas uma maneira de pessoas com quartos extras ganharem algum rendimento extra enquanto inseriam as pessoas na cultura local, transformou-se num negócio em que imoveis são alugados na sua totalidade e que contribui para a inflação do mercado imobiliário e a consequente gentrificação dos locais mais procurados.

Esta oferta cria uma alternativa frequentemente mais em conta e com uma certa independência quando comparada com a hotelaria tradicional. É também uma experiência de certa forma mais comunitária, que tem benefícios, como a possível inserção na cultura local e, por outro lado, a possibilidade de conhecer novas pessoas de diferentes lugares e novas perspetivas e interesses.

Apesar deste benefício, o alojamento local é também causa de gentrificação. Este fenómeno significa uma perda de autenticidade, através da perda de pessoas e, consequentemente, de tradições. Isto acaba por ir contra o objetivo pois ao tentar oferecer uma experiência mais autêntica aos visitantes retira-se a autenticidade do local.

A inflação dos preços imobiliários é, para alem da principal razão da gentrificação, também uma desvantagem para os estudantes que têm de arranjar habitação durante o ano letivo e têm assim menos e mais caras possibilidades, pois o alojamento local acaba por ser mais lucrativo para o dono do imóvel.

Esta situação levou a que tenha sido criada em algumas cidades mais afetadas legislação de modo a controlar este tipo de alojamento. Em Portugal, podemos falar do exemplo lisboeta, em que a legislação foi alterada através da implementação de um conjunto de políticas públicas urbanísticas de modo a evitar as desvantagens provenientes da existência desta oferta em excesso.

O aparecimento da pandemia onde nos encontramos afetou enormemente o turismo e, consequentemente, levou a uma crise no setor do alojamento, incluindo o alojamento local. Para ajudar a combater este declínio, o Turismo de Portugal criou o selo Clean&Safe, que pode ser adquirido através de formações para várias atividades, incluindo o alojamento local.

Esta medida, apesar de fornecer uma distinção e garantia de qualidade, não é suficiente para a recuperação do setor pois as fronteiras constantemente fechadas e o confinamento que estamos a viver impede a utilização deste serviço.

Esta pandemia e as suas consequências nos setores da hotelaria provavelmente criarão a necessidade de uma nova perspetiva e utilização dos imóveis de modo a evitar o tipo de avultados prejuízos que se verificam. Podemos assim neste momento verificar uma tendência inversa àquela que tem sido vista nos últimos anos no mercado imobiliário, pois podemos ver agora uma estagnação ou até mesmo contração do mesmo.

Podemos assim concluir que, apesar de existirem benefícios associados a este tipo de alojamento, como a acessibilidade e a partilha de culturas, existem também desvantagens ligadas à consequente inflação imobiliária. Podemos concluir também que, apesar de começar a existir legislação para controlar esta oferta específica, estarão sempre a aparecer mais e é necessário um maior controlo e regulamentação de modo a evitar casos extremos, como pudemos ver em alguns locais mais turísticos. Considero, deste modo, que a existência de alojamento local não é necessariamente algo desvantajoso desde que seja devidamente controlado, pois a maioria dos pontos negativos que advêm do mesmo são consequências de inflação imobiliária.

 

Mariana Antunes

(Artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Património Cultural e Políticas de Desenvolvimento Regional”, lecionada ao Mestrado em Património Cultural, do ICS/UMinho)

quinta-feira, abril 30, 2020

"O Turismo no Minho no Pós-Coronavírus"

APROTURM - Associação dos Profissionais de Turismo do Minho

Fórum
O Turismo no Minho no Pós-Coronavírus

Tema
"O Impacto do Emprego e Profissões do Turismo"
(30 de abril de 2020)

0.                Agradeço à Associação dos Profissionais de Turismo do Minho o convite que foi endereçado à UMinho para indicar um seu representante para o debate.
Congratulo-me pelo seu sentido de oportunidade, por trazerem para o debate o tema que foi escolhido.
Saúdo os demais oradores e participantes no Fórum, formulando votos de que se encontrem de boa saúde.

1.                A minha intervenção será centrada em 5 tópicos, para destacar aquelas que me parecem ser as questões/preocupações centrais do momento, e fazer a gestão adequada do tempo me foi atribuído.
Esta intervenção é suportada em reflexão própria e nalguma literatura académica do âmbito do turismo (sobre o impacte da COVID-19), que começa a surgir.

2.                Tópicos selecionados:
i)              Incerteza;
ii)           Insegurança;
iii)         Assimetria;
iv)         Reconfiguração;
v)           Retorno ao caminho.

3.                 Desenvolvimento dos tópicos selecionados
i)                   Incerteza
A crise sanitária, na sua expressão no mundo e implicações de saúde, sociais e económicas, foi um evento absolutamente inesperado e esmagador, comparado nas suas repercussões a tragédias como as da 2ª guerra mundial. Ninguém, indivíduos/famílias, empresas e outras organizações, estado, estava preparado para lidar com tal fenómeno e ninguém sabe muito bem o que se vai passar a seguir, como e quando.
Daí resulta que estamos perante um cenário de gestão de um fenómeno num contexto de aprendizagem e adaptação/resposta. O planeamento, a decisão, o investimento devem acontecer mas guiados por esse ambiente de incerteza, o que recomenda muita prudência, e apostas “seguras”, quer dizer, estruturais.
Dado o contexto e implicações mundiais em que a doença decorre, muitas das respostas necessárias só são possíveis de ser dadas e ter alguma efetividade no contexto internacional global, da saúde, à economia e, obviamente, ao turismo, como é sublinhado por Hall, Scott e Gössling (2020). 

ii)                Insegurança;
A insegurança que se vive começa por ser sanitária, sentida por cada um e pelo coletivo, e conduz a insegurança geral, económica social e turística. Em razão disso, adia-se a retoma da vida económica e social e adiam-se decisões, como a aquisição de certos bens (bens duradouros), o planeamento de viagens e o agendamento de férias. Quando não se adiam, avança-se precariamente, ao sabor dos sentimentos e acontecimentos do dia-a-dia, isto é, por exemplo, fazem-se reservas de alojamento para o verão, mas também se cancelam, a seguir, ao menor sinal de incerteza.
Conforme noticiado nos jornais neste final do mês, depois de no dia 14 de abril António Costa ter dito que espera que, no verão, os portugueses tenham possibilidade de gozar férias, as reservas de casas e hotéis no Algarve têm aumentado. O jornal Observador, por exemplo, avançava que os hotéis algarvios estavam a receber cada vez mais reservas, para julho e agosto, de portugueses e turistas estrangeiros, nomeadamente britânicos (cf. ZAP aeiou, de 27 de abril). Entretanto, o diretor da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve adiantava que “É verdade que também tivemos e ainda temos muitos cancelamentos” (ZAP aeiou, de 27 de abril).
Nesse contexto, o mesmo ator associativo acrescentava nas declarações que fez à comunicação social que “O facto de o Algarve ser considerado um destino turístico Covid-Free pode potenciar o aumento da procura externa” (ZAP aeiou, de 27 de abril).

iii)              Assimetria
O que se refere antes sobre reservas e cancelamentos de férias no Algarve, percebe-se que se passa com outros territórios. Ponte de Lima, por exemplo, é uma das manifestações da assimetria como o fenómeno sanitário, nas suas implicações económicas, se exprime.
O Algarve, ao ser considerado um destino turístico Covid-Free, pode potenciar a procura externa, na medida em que os seus principais concorrentes se debatem com problemas sérios, a começar pelo sul de Espanha, que é um dos seus maiores concorrentes, segundo o diretor da AHETA (ZAP aeiou, de 27 de abril).
Outra manifestação de assimetria neste fenómeno é a do potencial reforço da procura turística interna, em detrimento da externa, não apenas por razões de confiança mas, igualmente, por determinações administrativas que possam existir (barreiras à circulação de pessoas no contexto internacional) e condicionamentos de transporte (operação das companhias áreas, entre outras, que tem sido um dos setores económicos mais atingidos pela crise económico/sanitária).
Conforme enunciado por Gössling, Scott e Hall (2020), a evidência inicial dos impactes nas viagens aéreas, cruzeiros e alojamento foram devastadores. Embora altamente incertas, as projeções iniciais da Organização Mundial do Turismo para 2020 sugerem que as chegadas internacionais podem diminuir de 20 a 30% face a 2019.

iv)              Reconfiguração
Conforme já assinalado, as mudanças no turismo serão desiguais no espaço e no tempo. Nalguns destinos, este quadro económico/sanitário ditará que reconsiderem a natureza da sua indústria do turismo e se concentrem mais em formas locais e mais sustentáveis ​​de turismo (Hall, Scott e Gössling, 2020). Porventura, num primeiro momento, mais atentos ao turismo interno mas com espaço para a continuação da aposta no turismo internacional.
Em todo o caso, este parece ser o momento para questionar a sustentabilidade do percurso mantido, isto é, para equacionar pôr no terreno apostas turísticas menos massificados e que vão ao encontro de públicos mais exigentes em matéria de experiência turística. Trata-se de apostar em transformações menos centradas no crescimento do número de visitantes e, porventura, mais sustentáveis, nas diversas leituras do conceito, e mais ricas e diversas em matéria de fruição turística e de contributo para o desenvolvimento local. O desenvolvimento de nichos como o ecoturismo, o enoturismo, e o turismo criativo, entre outras, são apostas que fazem particular sentido serem feitas em Portugal.

v)                Retorno ao caminho.
Contrariamente ao que acontecia noutros destinos turísticos nacionais, por exemplo, Lisboa, Porto, Algarve e Madeira, o Minho pré-COVID-19 não se tinha ainda tornado num destino massificado. Aparte isso, muita da sua oferta potencial encaixa bem na estratégia que se reclama ser necessário implementar em Portugal no futuro mais próximo e mais longínquo.
As expressões culturais diversas, materiais e imateriais, a natureza, as manifestações particulares do rural, a gastronomia e vinhos, as rotas de peregrinação e de fruição da natureza, etc., são um pano de fundo suficientemente rico e diverso para sustentar um desenvolvimento turístico rico em experiência proporcionada aos visitantes e promotor de desenvolvimento local/regional. A reconfiguração da oferta não parece ser muito difícil de fazer, e as oportunidades económicas avultam.
Não se pense, no entanto, que mesmo no Minho não há custos. Na verdade, do que conheço no terreno, particularmente da vivência de Ponte de Lima, que tinha uma aposta bastante consistente em matéria de atuação no turismo (e era/é, um dos lugares atravessados pelo Caminho [Central)] de Santiago e de outras “peregrinações”, nomeadamente de natureza gastronómica e ambiental), Ponte de Lima, digo, é o exemplo de um local onde foram feitos investimentos que não vão ser rendibilizados e onde há empregos que não serão recuperados no curto e médio prazos.
Note-se a propósito que já antes da crise sanitária e pese o afluxo crescente de visitantes, era para mim óbvio que a oferta de unidades de alojamento local estava a crescer muito acima das necessidades. Criou-se a ilusão de que havia espaço para todos e a rendibilidade gerada era elevada, o que estava longe da realidade. Muitas dessas unidades não vão voltar a abrir, e outro tanto se passa com uma série de pequenos negócios que giravam em torno do turismo.
Esta é uma realidade que estou convencido que extravasa muito o caso de Ponte de Lima, mesmo no contexto do Minho. No caso de outros territórios que viveram mais intensamente o fenómeno da explosão do turismo em Portugal, a situação será muito mais grave.
Seja como for, acredito que há futuro para o turismo em Portugal, e também no Minho, em particular.

J. Cadima Ribeiro
(Professor do Departamento de Economia da EEG/UMinho; investigador do NIPE e do Lab2.PT)













Referências
Gössling, S., Scott, D. e Hall, M. (2020). “Pandemics, tourism and global change: a rapid assessment of COVID-19”. Journal of Sustainable Tourism,
Hall, M., Scott, D. e Gössling, S. (2020). “Pandemics, transformations and tourism: be careful what you wish for”. Tourism Geographies, DOI: 10.1080/14616688.2020.1759131.
ZAP aeiou (2020). “Covid-19 não trava férias de verão. Reservas de casas e hotéis no Algarve aumentam”. ZAP aeiou, edição de 27 de abril de 2020, http://www.aeiou.pt/.

sexta-feira, abril 10, 2020

A gastronomia criativa de Parma

Uma cidade com mais de 190 mil habitantes, Parma é o centro gastronómico do "Vale da Comida Italiana"¹. Com cerca de um terço da força de trabalho a trabalhar na indústria agroalimentar e gastronómica, o setor é a força motriz da economia local. A visão de Parma sobre a gastronomia está intrinsecamente ligada à sustentabilidade ambiental baseada na produção local e na reciprocidade urbano-rural.
Em 2015, Parma foi a primeira cidade italiana oficialmente proclamada pela UNESCO como Cidade Criativa da Gastronomia. Parma está situada na Emilia-Romanha, uma região no norte da Itália, que se estende desde as montanhas dos Apeninos ao rio Pó, no norte. É a região europeia com o maior número de produtos com selo DOP e IGP (Denominação de Origem Protegida e Indicação Geográfica Protegida)². Quem nunca ouviu falar ou nunca provou do queijo parmesão e do presunto de Parma? Outros produtos tutelados são a “coppa de Parma”, o salame de Felino, o “culatello de Zibello”, o cogumelo de Borgotaro e os vinhos “Colli di Parma”.

Figura 1: Mapa DOP E IGP da Região Emilia-Romanha

A localização geográfica e a cultura da cidade de Parma permitiram, ao longo dos séculos, a produção de excelentes produtos, o desenvolvimento de importantes indústrias e tecnologias para a preservação dos alimentos, e o desenvolvimento de uma verdadeira cultura alimentar. O património gastronómico de Parma não é apenas um conjunto de recursos, mas é uma combinação única de expressões antropológicas que constituem a identidade, a história e o know-how da comunidade, uma cultura ligada a um património material e imaterial: o contexto ideal para promover o desenvolvimento do "turismo criativo".
O setor agroalimentar está representado em Parma e no seu território através de toda a cadeia alimentar: produtos típicos e seus consórcios de proteção, restaurantes e chefs de renome estrelados, professores de cozinha italianos, museus gastronómicos, investigação e segurança alimentar, indústrias agroalimentares, projetos culturais e educativos, eventos e exposições internacionais, nacionais e locais.
Da cadeia curta à orgânica, da recuperação das produções tradicionais às grandes indústrias, em Parma "sabem fazê-lo": o profundo conhecimento dos truques do comércio, o artesanato e a transmissão do conhecimento lançaram as bases de uma verdadeira cultura alimentar e de uma cadeia de excelência.
Nesse contexto, a cidade testemunha o seu plano de desenvolvimento liderado pela cultura, registando quase 3.000 empresas criativas. A Câmara Municipal de Parma reforçou as suas estratégias e políticas de apoio ao surgimento de novas indústrias criativas. No domínio da gastronomia, o quadro político tem sido influenciado pelo mercado de empresários agrícolas denominado “The Court”, da terra à mesa, que foi o primeiro a reconhecer a importância das vendas diretas e de uma cadeia alimentar curta para a produção e consumo sustentáveis. O governo local está empenhado em seguir este rumo, sensibilizando para produtos rastreáveis e sazonais para manter a biodiversidade e a sustentabilidade ambiental.
A designação da UNESCO não é nem um rótulo nem um prémio. É a implementação de um modelo de desenvolvimento urbano que valoriza a força da cidade, o que os torna famosos no mundo: boa comida. A gastronomia não é apenas um produto comercial, é o símbolo de toda uma comunidade. Para alcançar este importante resultado, na verdade, Parma não tinha que "inventar" nada, mas teve que sistematizar o que tinha desenvolvido ao longo do tempo em termos de experiência, histórias, know-how, tornando-o a pedra angular do seu crescimento. É o património do conhecimento e das competências sedimentadas e refinadas em séculos de trabalho e paixão e a capacidade de projetar-se para além das fronteiras geográficas e culturais, lançando uma ponte para o futuro.
Pode-se dizer então que o desenvolvimento em Parma requer a participação de todos os atores no território: administração, cidadãos, especialistas, empreendedores e criativos e comunidade local. Neste caso, o conceito da sua criatividade baseia-se na crença de que a cultura e a gastronomia podem desempenhar um papel importante no seu desenvolvimento urbano.

Altamir Cartaxo Braga

Links:

1 - http://www.parmacityofgastronomy.it/, acedido em 03/04/2020
2- https://www.regione.emilia-romagna.it/, acedido em 08/04/2020


(Artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Património Cultural e Políticas de Desenvolvimento Regional”, lecionada ao Mestrado em Património Cultural, do ICS/UMinho)

segunda-feira, março 09, 2020

Turismo Médico - Vila Nova de Famalicão terá o primeiro “Hotel Assistencial” de Portugal

          Na área da saúde, Portugal inspira confiança e é cada vez mais procurado. Para muitos, os cuidados de saúde portugueses são uma alternativa com uma excelente relação qualidade-preço, que os cuidados médicos e de reabilitação, a hospitalidade, o clima, o contacto direto com a natureza e a hotelaria portuguesa tornam numa experiência gratificante.
         Vila Nova de Famalicão tem mais um motivo de visita. O concelho vai ser uma referência no sector da hotelaria assistencial com a concretização do primeiro hotel assistencial de Portugal. Tudo por conta do projeto Campus de Fiães Assisted Living Hotel, que irá custar cerca de três milhões de euros e irá ser implementado em Gondifelos, com a proposta de um novo modelo de residências assistidas, destinadas não só idosos mas também a crianças, jovens ou adultos com algum tipo de dependência que as impeça da autonomia.
         Não é apenas mais um hotel que vai nascer neste que é considerado o conselho com a melhor balança comercial do país, com um saldo positivo de 919 milhões de euros. O Campus de Fiães Assisted Living Hotel é um empreendimento hoteleiro inovador, que vai nascer na freguesia de Gondifelos, adicionando ao conforto do alojamento a vertente assistencial especializada em áreas como a enfermagem, fisioterapia, psicologia, entre outras especialidades médicas.
         O empreendimento estará equipado com restaurante, bar, piscina, ginásio, espaços de apoio clínico (gabinetes médicos, enfermagem, fisioterapia e psicologia, entre outras especialidades médicas), bem como com uma unidade de internamento direcionada aos familiares dos cuidadores informais. Destinada a estadias temporárias centradas em programas intensivos de avaliação e reabilitação, possibilita o descanso do cuidador, proporcionando aos seus utentes uma intervenção adequada às diferentes doenças, ao mesmo tempo que disponibiliza um acompanhamento médico e de enfermagem contínuo e especializado.
         Segundo a autarquia, este projeto é inequivocamente uma mais-valia para o concelho, porque tem uma dimensão pioneira, sendo o primeiro projeto do género em Portugal, o que dá só por si notoriedade, mas também por ser implementado numa zona rural do concelho.
         O projeto surgiu de uma iniciativa de um casal jovem famalicense e a construção terá uma área aproximada de 33 000 m2. Para além do edifício principal, será um empreendimento constituído por um edifício com cerca de 2000 m2 e por 10 casas modulares autónomas, implementadas numa zona verde circundante ao edifício principal, totalmente equipadas e integradas no conceito sustentável desenvolvido pela arquitetura e engenharias.
         “Nessas casas modulares, os residentes que recusam o conceito de lar de idosos, poderão usufruir os seus dias de forma autónoma e independente, podendo contar sempre com o apoio do nosso pessoal especializado: médico e enfermagem 24 horas por dia. Quer dizer, destinam-se a idosos que recusam a institucionalização nas tradicionais respostas sociais, mas claramente necessitam de um apoio de retaguarda para alcançarem um envelhecimento mais ativo e saudável”, explicam os promotores do empreendimento.
         “A ideia é contrariar o conceito típico dos lares onde os residentes ficam privados de vida social e de privacidade. O hotel Campus de Fiães tem como missão dar resposta às diferentes necessidades da criança, jovem, idoso, grupos vulneráveis e comunidade em geral, procurando o seu bem-estar físico, psíquico e social”, acrescentam.

Helena Isabel Azevedo Abreu

(Artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia do Turismo”, de opção, lecionada a alunos de vários cursos de mestrado da EEG, a funcionar no 2º semestre do ano letivo 2019/2020)

Turismo Industrial e de Negócios – o caso de Paços de Ferreira, “Capital do Móvel”

O Turismo Industrial é uma das formas de Turismo Cultural onde a intenção é promover o património industrial, e Turismo de Negócios são todas as atividades quer de alojamento, alimentação, lazer, entre outras, concretizadas por alguém que viaja em negócios. Ainda que, muito incipiente e em fase de desenvolvimento, o caso de Paços de Ferreira, cidade também conhecida como “Capital do Móvel”, é um exemplo claro do desenvolvimento do Turismo Industrial e de Negócios, que tem como intuito impulsionar e desenvolver a economia local.
Por esse motivo, a Câmara Municipal de Paços de Ferreira, em conjunto com o setor empresarial e a Associação Empresarial de Paços de Ferreira (AEPF), tem incrementado projetos que potencializam a Imagem de Marca “Capital do Móvel”. Uma das iniciativas criadas pela AEPF foi as I Jornadas Internacionais da Capital do Móvel, que decorreram nos dias 20 e 21 de novembro de 2019, uma atividade que apelou a participantes oriundos de todos os países e que foi divulgada para todas as comunidades.
O objetivo era a promoção das empresas e a criação de um debate entre as mesmas que, no final, contou com uma visita a duas instalações e respetivas unidades de produção. É importante referir que no setor do Turismo Industrial e de Negócios a criação de projetos que aliem o setor de produção, como a visita às unidades industriais, e o setor comercial do mobiliário, estimulam vários aspetos da economia local.


Fonte: AEPF

Em vista disso, as iniciativas empreendidas para a promoção da Marca “Capital do Móvel” estimulam outros grupos económicos do setor turístico em Paços de Ferreira, desde a promoção do setor hoteleiro, do setor da restauração, das empresas de animação turística e dos espaços de lazer e entretenimento, entre outros setores. Mas também o comércio dos produtos tradicionais próprios do Concelho sai estimulado.

Fonte: Vídeo promocional da AEPF

A posição estratégica de Paços de Ferreira em relação à cidade do Porto é outro fator a destacar, visto que esta proximidade possibilita a atração de turistas de todo o mundo, para conhecerem não só as indústrias e empresas do setor mobiliário como também visitarem as duas feiras anuais que tinham, anteriormente, apenas lugar no concelho de Paços de Ferreira mas, pela primeira vez no ano passado, em Agosto de 2019, a 53ª edição da feira de comércio foi realizada na Alfândega do Porto, comportando turistas nacionais e internacionais.
O fomentO de acordos e parcerias é outro aspeto que potencia o Turismo Industrial e de Negócios. A título mais recente, destaco a colaboração com o Turismo do Porto e Norte de Portugal na área do Turismo de Negócios. Esta parceria compreende uma área de exposição aberta todo o ano em Paços de Ferreira, dado que se de trata de um concelho sustentável e com muito potencial.
Em suma, apesar de em fase embrionária, a aposta no Turismo Industrial e de Negócios em Paços de Ferreira, o maior centro comercial de mobiliário da Europa, proporciona uma valorização do turismo e da economia local. Assim sendo, os turistas que realizem Turismo de Negócios acabam sempre por se envolver e combinar o seu propósito com outras atividade de lazer, visto que a “Capital do Móvel” apela a isso mesmo.

Bruna Sofia Carneiro Gomes

Referências
AEPF. (2020). I Jornadas Internacionais Capital do Móvel. AEPF. Consultado em 3 março, 2020, de https://www.aepf.pt/2019/11/15/i-jornadas-internacionais-capital-do-movel-inscricoes/
Câmara Municipal de Paços de Ferreira. (2020). Turismo Industrial e de Negócios. Consultado em 2 março, 2020, de https://www.cm-pacosdeferreira.pt/index.php/turismo-industrial-e-de-negocios
European Capital of Furniture Paços de Ferreira. (2015). Capital Europeia do Móvel. Consultado em 3 março, 2020, de https://www.capitaleuropeiadomovel.com/new/index.php/
Lusa. (2018, 12 Janeiro). Turismo do Porto e Norte dinamiza Paços de Ferreira com nova área de exposição. Diário de Notícias. Consultado em 5 março, 2020, de https://www.dn.pt/lusa/turismo-do-porto-e-norte-dinamiza-pacos-de-ferreira-com-nova-area-de-exposicao-9044396.html

(Artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia do Turismo”, de opção, lecionada a alunos de vários cursos de mestrado da EEG, a funcionar no 2º semestre do ano letivo 2019/2020)

Turismo Industrial

O Turismo Industrial é uma forma de turismo cultural que tem como principal objetivo a promoção do património industrial do local. Inclui, ainda, deslocações motivadas pelo interesse nas empresas ou em atividades específicas reconhecidas, que se localizam num determinado local.
         Vila Nova de Famalicão ou “Famalicão Cidade Têxtil” tem vindo a deter cada vez mais indústria no concelho, e está cada vez melhor classificada a nível nacional no que toca a indústrias. É, assim, o maior concelho exportador do norte do país e o terceiro que mais exporta de Portugal. No concelho, situam-se, também, empresas de renome nacional e internacional, e existem projetos de apoio às empresas existentes e a quem pretende criar uma empresa. A localização central é também muito valorizada, o que torna o concelho um local a apostar para quem vem visitar as empresas, para quem vem a eventos das mesmas e para potenciais eventos no que toca ao turismo industrial e de negócios.
         Marcando pela diferença, Vila Nova de Famalicão decidiu reafirmar que acredita na potencialidade da indústria existente no concelho, criando um projeto de Turismo Industrial, que resultou da “Estratégia de Desenvolvimento Famalicão Turismo 2020”. É um projeto diferenciador e pretende dinamizar e valorizar a indústria existente no concelho. Para além disso, pretende que os turistas apostem numa experiência nova.

É cada vez maior o número de setores presentes no concelho e, por isso, este projeto já reúne um conjunto de onze empresas (públicas e privadas) de diversos setores, e divide-se em quatro áreas: Património Industrial; Indústria Viva; Centro de Investigação; e Desenvolvimento e Enoturismo.
         Com a intenção de continuar a preservar o património que surgiu com a industrialização, existem três museus neste projeto: Museu da Indústria Têxtil; Museu do Automóvel; e Museu Nacional Ferroviário.
Para dar a conhecer o funcionamento e processo de produção das indústrias aos visitantes, e para estes terem uma experiência cultural inovadora, as empresas Têxtil Nortenha, a Troficolor e a Fabrica de Chocolates – Casa Grande juntaram-se ao projeto. No que toca a Investigação & Desenvolvimento Tecnológico das Indústrias Têxtil e do Vestuário, o parceiro é o CITEVE. Por fim, no Enoturismo, pretende-se que os visitantes usufruam de degustações de vinhos aliadas a produtos regionais em quatro locais: Casa da Compostela; Castro – Vinhos de Portugal; Adega Casa da Torre; e Casal de Ventozela. Embora sejam onze as empresas presentes no projeto, com o tempo haverá hipóteses para que existam mais empresas a colaborar neste tipo de turismo.
         Devido a esta aposta, a autarquia anunciou que já avançou com uma candidatura ao programa RegFin, do Turismo de Portugal, e que será dinamizada numa primeira fase pelos promotores do projeto “Rede Portuguesa de Turismo Industrial – RPTI”, que integra, para além de Vila Nova de Famalicão, os municípios de S. João da Madeira, Vale de Cambra, Vila do Conde, Santo Tirso e Santa Maria da Feira.
Este novo tipo de turismo vem dar a Vila Nova de Famalicão mais um motivo para ser visitado, principalmente por turistas que estejam dispostos a conhecer locais pela cultura e pela indústria, e que procurem uma nova experiência.
Inês Paredes

(Artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia do Turismo”, de opção, lecionada a alunos de vários cursos de mestrado da EEG, a funcionar no 2º semestre do ano letivo 2019/2020)