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quinta-feira, abril 22, 2021

Feira de Chocolate Internacional de Óbidos sob plataforma virtual

A Feira Internacional do Chocolate acontece em Óbidos desde 2002, por volta de novembro. Não é muito tempo a nível de comparação com outros eventos desta envergadura, contudo é o tempo suficiente para atrair pessoas de vários cantos do mundo para a pequena terra de Óbidos, em Portugal. Sem dúvida que este evento estimula não só o paladar mas, também, a movimentação turística no nosso país.

A feira é composta por um conjunto de acontecimentos envolvidos no próprio chocolate. É o sonho para qualquer amante de chocolate, o verdadeiro parque atrativo, com atividades diversas para todas as idades e gostos.

Dentro das atividades que decorrem na feira estão os workshops e cursos para quem deseja aprender mais sobre as técnicas e truques do processo de criação do chocolate, atividades e momentos lúdicos para crianças, peças escultóricas feitas em… chocolate, concursos, entre outros. Tudo isto e mais algumas divertidas atividades, criam uma atmosfera envolvente, e deixa um aroma doce no ar. No passado ano, contudo, o aroma doce ficou mesmo apenas no ar, e não se fez sentir de forma “viva”.

Acontece que no ano passado de 2020, a esperada feira do chocolate teve já de ser adiada para este ano de 2021, todavia, como o clima de instabilidade e insegurança pairava sobre o pensamento coletivo da população em geral, alteraram-se os meios. Em 2021, acontece pela primeira vez, como em muitas outras situações que envolvem convívio e aglomeração de pessoas, a feira de chocolate de Óbidos pela plataforma online.

Nesse contexto, surgem muitas perguntas e ideias. Será que dá certo? Será que vale a pena investir mais tempo em frente ao ecrã? Será que satisfaz da mesma maneira? E o convívio como irá acontecer?

Sem dúvida que muitas questões pertinentes são colocadas e que nos fazem pensar, mas porque nos damos ao trabalho de realizar algo tão prazeroso: o convívio, em algo tão habitual. Obviamente que ficar em frente ao ecrã por vários períodos de tempo, para além de não ser saudável fisicamente, não é nada convidativo mentalmente. No fundo, estão a convidar-nos para fugir à rotina da mesma forma que vivenciamos a rotina: sentados em frente ao ecrã, com uma dose extra de conforto… uma manta e um sofá ao dispor.

Muitas pessoas acreditam que não vale tanto a pena realizar estes convívios online, dizem que não é a mesma coisa nem nunca irá ser, pois as pessoas querem ir a este tipo de feiras para conviver e tal não é possível via online. Outras questionam-se de como será possível realizar uma feira ligada ao sentido do paladar sendo que não há o que provar? Compreendo todos estes questionamentos e dúvidas, pois à primeira vista é impeditivo. Contudo, acho heroico e até louvável criarem esta alternativa. É a solução mais adequada dado a situação que vivemos. É o pilar que restaura e não faz com que não se perda no esquecimento das pessoas. Apesar de ser vivido de outra forma, acredito, assim como muitos, ser um meio para alcançar a população, e para fazer lembrar e acontecer a feira.

Dentro desta alternativa, o que se vai passar de facto nas sessões online é uma passagem de saberes através desta nova plataforma, com o intuito de formar e informar acerca do delicioso tema: Chocolate, de forma extra didática. Só a tentativa de se fazerem ouvir e não deixarem passar ao lado a feira, e de manterem tudo isto numa via segura para todos, já é sinal de esperança.


Márcia Sousa Silva

(Artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Património Cultural e Políticas de Desenvolvimento Regional”, lecionada ao Mestrado em Património Cultural, do ICS/UMinho)

segunda-feira, agosto 17, 2020

"O LADO HUMANO DAS CIDADES INTELIGENTES E O CONTRIBUTO DO EMPREENDEDORISMO SOCIAL"

RESUMO

O conceito de cidade inteligente (CI) é um conceito promissor que tem acolhido uma atenção crescente quanto ao seu potencial para a melhoria da qualidade de vida das cidades. O conceito começou a ser disseminado tendo em mente a necessidade do uso das tecnologias de informação e comunicação para o incremento do bem-estar dos cidadãos. No entanto, as interpretações mais recentes do conceito apontam para a necessidade de uma visão mais holística de CI, que contemple outras caraterísticas relevantes para a dinamização e desenvolvimento urbano. Através do estudo de uma iniciativa de empreendedorismo social (CAIS - Associação de Solidariedade Social) que atua nas duas principais cidades Portuguesas, Lisboa e Porto, esta investigação pretende ajudar a compreender em que medida é possível tornar cidades inteligentes mais humanizadas e sustentáveis através do empreendedorismo social. O levantamento de dados foi feito recorrendo a uma triangulação de fontes, primárias e secundárias. Os resultados obtidos indicam que através de iniciativas de empreendedorismo social é possível contribuir positivamente para a criação de valor nas cidades, através da melhoria da qualidade de vida dos seus cidadãos e da resolução sustentável de alguns dos mais urgentes desequilíbrios sociais. A investigação indica que a adoção de uma estratégia assente na valorização da componente humana tem-se mostrado capaz de produzir uma resposta sustentável e de contribuir positivamente para outras dimensões das cidades inteligentes.

Palavras-chave: Cidades inteligentes. Empreendedorismo social. Valor social. Inovação social. Portugal.

 Susana Bernardino1

J. Freitas Santos2  

J. Cadima Ribeiro3

1 CEOS.PP/ISCAP/P.PORTO, Porto, Portugal, susanab@iscap.ipp.pt

2 CEOS.PP/ISCAP/P.PORTO, Porto, Portugal, jfsantos@iscap.ipp.pt

3 NIPE/EEG/UMINHO, Braga, Portugal, jcadima@eeg.uminho.pt

[resumo e palavras-chave de artigo aceite para publicação no DOSSIÊ TEMÁTICO – DRd 2020: CONHECIMENTO, INOVAÇÃO, CRIATIVIDADE OU INTELIGÊNCIA PARA O DESENVOLVIMENTO DE CIDADES, MUNICÍPIOS, REGIÕES E TERRITÓRIOShttp://www.periodicos.unc.br/index.php/drd/announcement]

segunda-feira, abril 13, 2020

COVID-19 - o impacte da pandemia no Turismo em Portugal


O mundo parou com o aparecimento da COVID-19, nome atribuído pela Organização Mundial da Saúde à doença provocada pelo novo coronavírus, SARS-COV-2. O impacte económico do novo coronavírus já se faz sentir em muitos países. As medidas de contenção da epidemia bem como da prevenção das zonas ainda não atingidas estão a reduzir fortemente a atividade económica, especialmente nos países infetados, mas em praticamente todo o mundo há consequências diretas e indiretas, nomeadamente no turismo.
Um dos grandes objetivos de 2020 para o Turismo a nível nacional era aumentar a capacidade de gestão das empresas participantes, promover a reorganização, a inovação e a mudança e promover a qualificação dos seus recursos humanos em domínios relevantes. Consequentemente, a aplicação deste objetivo levava ao aumento do número de turistas em Portugal, segundo revelou o Barómetro do Turismo, levado a cabo pelo Instituto de Planeamento e Desenvolvimento do Turismo (IPDT).
Mas tendo em conta o aparecimento e crescimento do Coronavírus (Covid-19) a nível mundial, todo o panorama mudou repentinamente, sem que as empresas tivessem oportunidade para pensar atempada e estrategicamente em planos de contingência para as suas insígnias.
O surto do novo coronavírus (Covid-19) provocou uma quebra acentuada de turistas, que se começou a verificar no início de março e tem vindo a ganhar terreno de forma exponencial, até chegarmos ao momento mais dramático, a declaração do estado de emergência, decretado pelos três órgãos de soberania: Presidente da República, Governo e Assembleia da República. Com esta medida e tendo em conta a obrigatoriedade de isolamento social imposto pelas autoridades de saúde, os cidadãos têm obrigatoriamente de o cumprir, o que significa que neste momento o turismo será inexistente e, consequentemente, o comércio e as compras. Segundo o INE, "A pandemia da Covid-19 terá impactos significativos e transversais na economia portuguesa. O turismo que, de acordo com a conta satélite do turismo, corresponderá a 11,3% do PIB  em 2018, será um dos setores mais afetado pela atual crise, sendo expectável uma contração significativa da sua atividade. Tendo por base o modelo Input-Output, um dos instrumentos analíticos disponíveis para estimar esse impacto, foi simulado o efeito de uma redução anual da atividade turística em 25%". Tendo por base este cenário, a "redução de 25% na atividade turística, quer do turismo de visitantes não residentes quer do turismo interno, traduz-se numa redução de 2,9% do PIB anual em Portugal", aponta a agência de estatísticas. 
Posto tudo isto, é imperativo o governo tomar medidas fundamentais para ajudar o setor, medidas estas que têm de ser colocadas em prática da forma mais célere possível e salvaguardar a tesouraria das empresas. Para combater esta crise o Turismo de Portugal lançou um conjunto de medidas para minimizar o impacte da redução da procura na atividade turística devido à Covid-19, incluindo uma linha de apoio financeiro de 60 milhões de euros para microempresas.
Acreditando que esta crise será temporal, é importante ter uma postura de otimismo e tranquilidade, para juntos tentarmos continuar a operar, dentro das contingências atuais, de forma a superar este golpe na economia. Assim que a epidemia desaparecer, é importante voltar a persuadir os turistas, reposicionando Portugal como um destino turístico de preferência, lugar este que tem vindo a conquistar ao longo dos últimos anos.

Helena Isabel Azevedo Abreu

Referências:
https://covid19.min-saude.pt/

(Artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia do Turismo”, de opção, lecionada a alunos de vários cursos de mestrado da EEG, a funcionar no 2º semestre do ano letivo 2019/2020)

sábado, abril 11, 2020

Hostels – um Aliado do Turismo ´Low Cost`

As preferências pelo alojamento têm vindo a sofrer mudanças. Se, há algum tempo, o alojamento era um dos entraves em termos de custos para os viajantes mais jovens, tal não se verifica na atualidade com o aparecimento dos hostels. Estes representam um segmento de indústria low cost, que está associado ao crescimento do turismo jovem a nível mundial. Estas faixas etárias da população procuram viajar a preços baixos e ter contacto com os viajantes das diferentes culturas das suas idades.
O alojamento low-cost foi impulsionado pelas companhias aéreas de baixo custo. Estas estão sempre a lançar novas rotas a preços muito apetecíveis, o que significa que o setor hoteleiro tem de se reajustar a esta nova realidade, para impulsionar o seu crescimento e agarrar este novo mercado.
Segundo Dubin (2003) e Rashid-Radha (2015), o termo hostel descreve um tipo de alojamento barato para aqueles que não procuram o luxo nem a privacidade a que estão habituados num hotel comum. Este tipo de alojamento fornece preços convidativos, e socialização. Podemos dizer que os hostels são semelhantes às pousadas da juventude portuguesas, mas com um público-alvo mais abrangente.
Normalmente, em Portugal, os hostels situam-se nos grandes centros urbanos próximos das zonas mais requisitadas por turistas. Muitas vezes, são edifícios no centro histórico, centenários e com algumas caraterísticas do património da cidade, que são requalificados e modificados para dar início a novos projetos modernistas. Volante (2011) constatou que os proprietários dos hostels em Portugal são jovens empreendedores das mais diversas áreas que transpõem as suas experiências das viagens neste ramo turístico.
A preferência dos clientes por este tipo de alojamento está nas vantagens que apresenta, o preço chamativo que oferece, a localização do alojamento face aos transportes públicos, bem como a facilidade de reserva. O tipo de cliente mais habitual neste tipo de alojamento é o Backpacker. Esta é a denominação utilizada a nível internacional para os turistas que viajam de forma independente, flexível e económica. Estes hóspedes apresentam um perfil informal e privilegiam o enriquecimento pessoal e cultural. Quem os recebe tem um papel fundamental na medida em que tem de os fazerem “sentir-se em casa”, visto que quase todos os espaços são partilhados, sendo muito importante que estes se sintam bem.
Estando este segmento de indústria em expansão, os investimentos neste ramo, em Portugal, têm vindo a dar frutos. Segundo avança uma notícia do jornal público, em 2019, Portugal tinha 9 dos melhores hostels do mundo. Desde logo, o hostel “The House Sandeman”, nas caves, em Gaia, arrecadou o prémio do “melhor novo pequeno hostel do mundo”. E para os viajantes solitários também parece não haver melhor do que Portugal, que põe os hostels portugueses no top 10.
Até hoje, no site hostelworld.com, existem 389 hostels em 87 cidades de Portugal. Isto revela a crescente tendência deste tipo de alojamento, que já não deve estar só nos principais centros urbanos de Portugal, mas também noutras cidades. Os hostels são um aliado do turismo low cost uma vez que o setor hoteleiro teve de se adaptar aos baixos preços praticados pelas companhias aéreas, e teve, também, de se ajustar a esta realidade de forma a atrair turistas.
Cada vez mais, este segmento da indústria está a ter sucesso, porque os hostels já não são procurados só por uma questão de preço, mas também pelas questões de cultura e trocas de experiência que proporcionam. Os bons resultados dos hostels portugueses nos “hoscars” revelam que os jovens empreendedores devem continuar a potenciar estes espaços e, desta forma, dar novas vertentes e experiências às cidades portuguesas.

Mariana Fernandes Soares

(Artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia do Turismo”, de opção, lecionada a alunos de vários cursos de mestrado da EEG, a funcionar no 2º semestre do ano letivo 2019/2020)

sexta-feira, abril 10, 2020

Rota turística: vinho e cerveja como possibilidade de inovação e mercado

É quase consenso de que o turismo vivencia uma metamorfose diária. Os turistas esperam cada vez mais alternativas diferenciadas para poder apreciar e novas possibilidades de mercados apareceram exponencialmente nos últimos anos.
Esse crescimento perpassa por uma palavra que, apesar de tornar-se demasiado clichê, é essencial para que o fenômeno aconteça: inovação. A inovação e o turismo caminham de mãos dadas com a tecnologia, e nesse sentido o ato de inovar significa a necessidade de criar caminhos ou estratégias diferentes para atingir determinados objetivos. Inventar, ou reinventar, sejam ideias, processos, ferramentas ou serviços, são fundamentais para os negócios, lembrando que todos os dias o mercado turístico se modifica para enfrentar uma verdadeira “batalha” por resultados, ora adaptando-se, ora reinventando-se, conforme as necessidades aparecem.
Segundo a Organização Mundial do Turismo, a inovação é a chave para criar setores cada vez mais competitivos e sustentáveis, e está diretamente associada a como os indivíduos podem acessar diferentes recursos em seus contextos de viagem. Os consumidores tendem a não buscarem mais países meramente para conhecer suas capitais, ou apenas o que há de famoso ou popular, mas percebem que, de modo geral, existem muitos outros atrativos tão, ou mais interessantes, que os considerados convencionais, despertando curiosidades até então negligenciadas.
As motivações turísticas se modificam com o passar dos anos e criam perceções a respeito de potenciais destinos e atrações, assim como exercem grande influência sobre as propagandas para atrair consumidores, que, nesse sentido, influenciarão uma viagem. Poucas experiencias são memoráveis, intensas, promovem entretenimento, educação, evasão ou estética que surpreendam o turista. Uma viagem diferenciada exige pessoas e condições especiais. Isso não implica apenas no poder económico, mas fundamentalmente em atitudes e posturas sociais, culturais, estéticas e políticas.
A oportunidade de desfrutar dos aspetos sociais do enoturismo, entre outras modalidades ligadas a fatores diferenciados, pode ser uma importante motivação para viajar, ao passo que os aspetos do vinho também se relacionam com a saúde e o bem-estar, e não mais apenas como a busca por sensações de prazer ou hedonismo,  podendo consolidar-se como um fator significativo para o seu consumo.


                       Imagem de propaganda de enoturismo no distrito de Braga, Portugal. Fonte: TripAdvisor.

A viticultura em Portugal e em vários países da Europa, como, por exemplo, Itália, França e Espanha, já possuem um setor dinâmico e consolidado, apesar dos inúmeros concorrentes que cada vez mais conseguem adaptar-se aos negócios.

Fonte: https://www.clubevinhosportugueses.pt/vinhos/o-estado-da-viticultura-mundial-2/

Além do enoturismo, outra forma de entretenimento que  chamou-nos a atenção atualmente é o de exploração da cerveja, principalmente com a intensa profusão de micro cervejarias de produção artesanal, também conhecidas como modelos “craft beer”, que hoje podemos encontrar com facilidade, prova de que é um mercado cada vez mais em ascensão.
Alguns países europeus possuem tradição e apresso pelo consumo habitual da cerveja, como por exemplo Holanda, Alemanha, Inglaterra, Irlanda e Bélgica, mas Portugal parece-nos também atualmente adentrar esse seleto rol.
O vinho e a cerveja são de certa forma companheiros, sendo as duas bebidas fermentadas mais importantes do mundo, uma derivada das uvas e a outra de grãos, respetivamente.  A cor e o sabor do vinho são influenciados pelo tempo de contato com as cascas das uvas e a cerveja ganha muito de sua cor e sabor do malte usado na produção.
As comparações entre os dois setores são possíveis, pois, além de serem duas bebidas milenarmente populares, podemos associá-las a práticas turísticas semelhantes em plena expansão,  como exemplo:  as visitações guiadas às empresas e zonas de produção, museus ligados à enocultura e cervejeiros, entre outros estabelecimentos, sem contar com as inúmeras possibilidades de contratos com historiadores como prestadores de assessoria cultural.
O vinho sempre foi um instrumento poderoso de diferenciação social, coisa que nem sempre a cerveja preocupou-se. Mas notamos que esse conceito já tem mudado notoriamente e está por cair, pois mudanças comportamentais entre os consumidores são claras, e temos um crescente e exigente público dentro do mercado cervejeiro que está rompendo paradigmas, fazendo com que os preços e qualidade das cervejas aumentem com as novas opções e segmentações do barato e do caro. Vale a pena lembrar que existem cervejas que percentualmente são tão ou mais caras do que um bom vinho.
Ainda assim, apesar da cultura das vinhas marcar profundamente as atividades rurais, as da cerveja, principalmente as artesanais, parece que vieram para ficar. Em Portugal, essa cultura cervejeira parece ter chegado mais tarde, mas verificando em números, entre os anos de 2017 e de 2019, as vendas na categoria de cervejas especiais cresceram 88% em valor e 112% em quantidade. Em comparação ao mercado global, o qual evoluiu 8% em valor e 5% em quantidade no mesmo período, é um dado considerável. Olhando apenas os últimos 12 meses, o acréscimo foi de 10% em valor e 15% em quantidade, de três a cinco vezes mais, do que os 3% do mercado total global de cervejas.
Para os protagonistas do setor, esta é uma revolução bem recebida. O movimento das cervejas artesanais contribuiu para um aumento da dinâmica do mercado cervejeiro e para alargar as ofertas disponíveis ao consumidor.

Cervejas artesanais portuguesas: um mercado em expansão. 

Em Portugal, cada vez mais as cervejas artesanais relacionam-se com o turismo. Como aconteceu em quase todos os outros países europeus, pode-se dizer que Portugal entrou finalmente nesse nicho do mercado, possuindo atualmente mais de 30 marcas nacionais. Essas cervejas atingiram um patamar de excelência de qualidade e atratividade. Já existem sítios a visitar de Norte a Sul do país, como por exemplo, as fábricas de cerveja “Post Scriptum” (Trofa) e a “Burguesa” (Vila Nova de Gaia) e, também, cervejarias especializadas, como por exemplo a “Catraio Beer Shop” (Rua da Cedofeita, Porto), entre outras.
A expansão das cervejas não parou por aí: Portugal soma sucessos e prémios internacionais importantes. A Maldita — bem-dita seja — foi eleita a melhor “Barley Wine” do continente europeu (o que em português quer dizer qualquer coisa como “vinho de cevada”) no World Beer Awards 2014. Trata-se de uma bebida artesanal produzida na cidade de Aveiro, criada em 2013 por Artur e Gonçalo Faustino, pai e filho, ambos engenheiros, que possuem uma micro cervejaria.
Concluímos que existe turismo para todos os tipos de aficionados, sejam eles cervejeiros ou fãs de um bom vinho, pois o mercado os acompanha, cresce e oferece diferenciações cada dia mais. Contudo, e de maneira bastante otimista, podemos esperar que esse “turismo alcóolico” contribua para a manutenção económica de diversas localidades, seja através do clássico enoturismo, ou do novo modelo cervejeiro artesanal.
Acreditamos que uma das melhores formas de aumentar a competitividade de uma determinada atração turística passa pela produção e divulgação dos conhecimentos adquiridos pelas experiências bem sucedidas, como forma de serem aproveitados pelos agentes económicos e pelos organismos institucionais de criação de estratégias competitivas. Neste aspeto, e no que concerne à produção tanto da cerveja como de vinho, é fundamental valorizar a história das regiões, suas culturas e especificidades, para coadunarmos crescimento sustentável e viabilidade de mercados.
Desta forma, conclui-se que o mercado turístico não é mais o mesmo. Está sempre em constante evolução e transformação, assim como os tradicionalismos, pois, como vimos, mesmo com mercados aparentemente distintos, vinho e cerveja têm em comum a capacidade de atrair diversos tipos de público, até porque o valor agregado aos produtos tem sido constantemente reavaliado.

Karen Cristina Galletto

Referências:

(Artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Património Cultural e Políticas de Desenvolvimento Regional”, lecionada ao Mestrado em Património Cultural, do ICS/UMinho)

sábado, abril 04, 2020

“Mais Velho que a Sé de Braga”


Certamente, todos já ouvimos a expressão “mais velho que a Sé de Braga”, mas muitos desconhecem a sua origem. É em Braga, na freguesia da Sé, que se localiza a catedral mais antiga de Portugal.



Sendo Braga conhecida pelo seu carisma religioso, denominada de cidade dos Arcebispos, é aqui que se encontra a Sé de Braga, marcada pelos seus estilos arquitetónicos, o barroco e o românico, tem documentos que denunciam a sua existência no ano de 400, no qual já era atribuído o estatuto de arcebispado, altura em que cidade era conhecida como Bracara Augusta. No entanto, a sua história melhor documentada leva-nos à restauração da Sé episcopal à data de 1070, por ordem do bispo D. Pedro de Braga.
Ao longo do tempo, esta catedral foi dos monumentos portugueses que mais intervenções sofreram, tais como os seus sucessivos alargamentos, que originaram as suas caraterísticas únicas, que contemplaram este monumento de enriquecimento, por ordem dos bispos. Cada um quis deixar a sua marca, e  até mesmo o cabido o fez.
Conhecida pelos seus eventos ligados à religião, como o caso da semana santa celebrada na cidade na semana anterior ao dia de Páscoa, esta é uma das alturas com maior fluxo de turismo em Braga. Ligada ao turismo, a Catedral de Braga, ou também conhecida como Catedral de Santa Maria de Braga, é considerada um dos ex-libris da cidade.
As suas caraterísticas passam por o templo principal, onde o estilo românico se faz notar pela sua fachada com duas torres sineiras e a porta principal. É aqui que se apresenta no interior o altar-mor, dedicado à Virgem Maria, e onde podemos ver o famoso Portal do Sol. Temos ainda os dois órgãos em tubos, onde um deles possui 2400 tubos construídos em 1738, também conhecidos pela sua decoração em talha.
A catedral tem no seu interior várias capelas, sendo elas a Capela de São Geraldo, a Capela dos Reis, onde estão os túmulos de Henrique de Borgonha (último conde do condado Portucalense), e de Teresa Leão, ambos pais de D. Afonso Henriques, primeiro Rei de Portugal. Tem ainda a Capela da Nossa Senhora da Glória e a Capela da Nossa Senhora da Piedade. Nesta estão os registos de todos os nomes dos arcebispos de Braga, denominada assim de sala dos arcebispos.
A Catedral de Braga possui no seu interior um museu designado de Tesouro da Sé. Aqui temos a oportunidade de viajar por cerca de 1500 anos de história, onde se encontram peças com um valor inestimável, ilustrando acontecimentos marcantes na história da igreja, como é exemplo a cruz usada na primeira cerimónia religiosa no Brasil, transportada por Pedro Álvares Cabral na sua viagem, caraterizando-se assim como um lugar de Arte Sacra, marcando cada pessoa que decide visitá-lo.
Desde “Roma Portuguesa” ou “Cidade das Igrejas”, a cidade de Braga é, devido aos seus monumentos religiosos, como a sua Catedral, um destino obrigatório no Turismo Religioso de Portugal.

Ana Paula Castro

(Artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia do Turismo”, de opção, lecionada a alunos de vários cursos de mestrado da EEG, a funcionar no 2º semestre do ano letivo 2019/2020)

quinta-feira, março 19, 2020

Paisagem Cultural de Sistelo: um breve olhar sobre o impacte do turismo

A Paisagem Cultural de Sistelo, também conhecida como Tibete Português devido às paisagens repletas de socalcos, é uma aldeia de remota origem medieval – das mais antigas do Alto Minho – situada no coração do Parque Nacional da Peneda-Gerês, muito próxima à nascente do rio Vez. Localizada a norte do concelho de Arcos de Valdevez, encontra-se encaixada no fundo de um vale e abarca em si os lugares de Igreja, Padrão e Porta Cova, encastoados entre o troço inicial do rio Vez e a serra da Peneda.

Figura 1 - Socalcos de Sistelo


Trata-se de um local revelador de uma profunda relação entre as suas populações e o respetivo território, representando um exemplo da capacidade de adaptação do Homem às singularidades e adversidades da natureza, como, de resto, podemos constatar pela criação dos socalcos. Em tempos, os declives caraterísticos desta região constituíam uma barreira natural à agricultura, tendo sido ultrapassada pela construção de socalcos que permitiram não apenas contrariar o declive natural do território mas, também, o aumento da superfície agrícola.
Este local é, também, caraterizado pela sua arquitetura vernácula centrada no uso do granito, que moldou a feição de habitações, templos, pontes e calçadas. Repleta de património, a aldeia de Sistelo contempla um conjunto de elementos de interesse cultural e turístico, nomeadamente a Ponte Romana de Sistelo, a Igreja Paroquial, uma variedade de capelas, um cruzeiro e um fontanário. Assume destaque a Casa do Castelo de Sistelo, um palácio revivalista de planta retangular, com duas torres com ameias, cuja origem remonta à segunda metade do século XIX, mandado edificar por Manuel António Gonçalves Roque, filho da terra, primeiro e único Visconde de Sistelo, após o seu regresso do Brasil. A aldeia de Sistelo possui, ainda, um miradouro – miradouro do Chã da Armada –, a partir do qual se pode contemplar a paisagem, bem como um trilho – trilho das Brandas de Sistelo – e a Ecovia do Vez, que percorrem uma parte significativa do concelho.

Figura 2 - Casa do Castelo de Sistelo


É assim que, considerando todos estes elementos, a Câmara Municipal de Arcos de Valdevez lançou, a 4 de Dezembro de 2008, a proposta para a classificação da Paisagem Cultural de Sistelo. A 9 de Maio de 2017 dá-se a publicação do projeto de decisão relativo à classificação como Sítio de Interesse Nacional/Monumento Nacional da Paisagem Cultural de Sistelo. A 3 de Setembro de 2017, a aldeia de Sistelo é eleita uma das 7 Maravilhas de Portugal, na categoria de Aldeia Rural, pela iniciativa da RTP.
A aldeia de Sistelo integra, ainda, a Rede Natura, bem como parte de uma área protegida que, em 2009, terá sido classificada pela UNESCO como Reserva Mundial da Biosfera. De acordo com a Direção Geral do Património Cultural, a Paisagem Cultural de Sistelo é composta por um espaço natural de superior qualidade paisagística, natural e ambiental, ao qual se soma um notável património etnográfico e histórico.

Figura 3 - Aldeia de Sistelo


Após a classificação de Aldeia Rural pelo programa da RTP das 7 Maravilhas de Portugal, bem como a promulgação do diploma que classifica Sistelo como monumento nacional, enquanto paisagem cultural, pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, a aldeia de Sistelo sofreu um surto turístico, passando a viver dias agitados com o crescente fluxo de turistas. Para tal, contribuíram, também, os cerca de 10 quilómetros de passadiços integrados na Ecovia do Vez.
Além de todas as alterações produzidas para albergar o crescente número de turistas, nomeadamente, no que respeita à ampliação de espaços existentes, bem como a criação de novos espaços, do qual é exemplo um café-restaurante, onde anteriormente terá funcionado apenas uma mercearia, foram, também, implementadas medidas de contingência, no que respeita às rotinas e aos modos de vida da população.
Com isto, surge também a necessidade de criar unidades de alojamento para os turistas, devido à escassez das mesmas, revelando-se, por parte de várias pessoas, crescente o interesse no investimento neste sentido. A par das necessidades manifestadas, surgem iniciativas, nomeadamente a transformação da Casa do Castelo em centro interpretativo da paisagem cultural, com o objetivo de acolher os turistas, orientando-os para os vários recantos da aldeia, a recuperação de um velho moinho e o acréscimo de mais meio quilómetro aos passadiços. Estas alterações têm por base a candidatura a projetos de financiamento que permitem a realização das mesmas.
Se, por um lado, toda esta nova realidade é encarada como uma oportunidade, sobretudo por parte dos jovens, que encontram nesta mudança novas perspetivas de construírem o seu futuro na sua terra natal, contribuindo para o desenvolvimento da mesma, por outro lado, os mais velhos encaram tudo isto como uma violação da pacatez da aldeia, refugiando-se nos campos com o intuito de evitar as câmaras fotográficas dos turistas. Neste sentido, a questão que se coloca procura compreender em que medida o turismo pode ser benéfico para esta região enquanto património, pois, se, por um lado, este fenómeno produz desenvolvimento social, cultural e económico, por outro lad, condiciona e limita as caraterísticas naturais, bem como a genuinidade do local, se considerarmos que o elevado fluxo de turismo retira ao espaço e à população a pacatez que a caraterizava.

Ângela Maria Rodrigues Calisto

Referências:

(Artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Património Cultural e Políticas de Desenvolvimento Regional”, lecionada ao Mestrado em Património Cultural, do ICS/UMinho)