sexta-feira, janeiro 13, 2012

ARTESANATO TRADICIONAL PORTUGUÊS – OLARIA NEGRA DE BISALHÃES

Actualmente, sobretudo pela globalização emergente, assiste-se à estandardização das especificidades culturais, acabando por se desprezar as características intrínsecas de uma região, tornando-as comuns às restantes províncias portuguesas. É fulcral destacar as especificidades de cada área geográfica, celebrando as suas qualidades, e eternizar as suas distinções.
Assistimos, cada vez mais, à crescente desertificação do interior e, com a migração da população para o litoral, são esquecidos os seus costumes e tradições - a população envelhecida já não pode dar continuidade à produção do artesanato, à gastronomia, aos jogos tradicionais (…). O fluxo de jovens a abandonar as áreas do interior, nomeadamente de Trás-os-Montes e Alto Douro, contribui para a extinção de práticas culturais, que, com falta de atenção e cuidado, morrem com quem a fez nascer.
O fabrico de Olaria Negra de Bisalhães não é excepção. Cada vez menos são os homens que praticam esta actividade, talvez pela dificuldade do ofício ou pela pouca vontade de aprender dos mais jovens. Iniciada em Lordelo, esta arte estendeu-se à aldeia de Mondrões, chegando, posteriormente, a Bisalhães - um dos principais centros oleiros do norte do país.
O processo de fabrico é único e muito complexo: inicialmente, o barro é desfeito e colocado à luz do sol para secar. Seguidamente é transportado para os ‘pios de pedra’, sendo moído e reduzido a pó fino, e amassado com água. O que dá a cor negra ao barro de Bisalhães é a cozedura numa ‘soenga’, um forno escavado no chão. O barro é esculpido pelo oleiro, que usa pedras do rio para polir as peças. Este artesanato servia como meio de troca para outros produtos, nomeadamente alimentos e peças de roupa. Ainda hoje, as peças são utilizadas para cozer alimentos - louças churras para o forno, assadeiras, alguidares para o arroz e tachos. No entanto, a peça que suscita maior curiosidade aos compradores é, indubitavelmente, a bilha do segredo. Esta peça possui um pequeno orifício na base superior, que pode ser utilizado para beber, mas também “esconde” uma série de aberturas por onde brota água. Para se poder beber dela, é necessário tapar um furo escondido por trás da pega e sorver o líquido pelo buraco superior, de modo a evitar que água caia para o chão.
Este produto tradicional é, ainda hoje, vendido à entrada da cidade de Vila Real, embora em menor escala do que antigamente. Os fabricantes de louça negra também se reúnem nesta cidade, anualmente, na célebre Feira dos Pucarinhos, realizada em Junho, que, embora sem as dimensões doutros tempos, continua a merecer visita.
Vivendo nesta região, noto que a importância dada a esta terra é cada vez menor. As tradições estão a ser, sem dúvida, esquecidas. A gastronomia é elaborada com menos frequência, talvez por serem pratos complexos e demorados. O artesanato é desprezado. A divulgação desta e outras práticas que, em tempos, eram consideradas essenciais à sobrevivência das famílias transmontanas, é muito escassa, o que contribui para a falha da sua continuidade. Deveriam, sem dúvida, existir incentivos para estes trabalhadores continuarem a fabricar estas peças, por exemplo, através subsídios para a produção, pagamento de custos de participação em feiras nacionais de artesanato, criação de feiras artesanais em aldeias com a participação de celebridades, entre outros, de modo a estimular as camadas mais jovens e mais velhas à celebração desta actividade.  

Adriana Isabel Carneiro Morais de Sousa

[Artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Economia Regional” do 3ºano do curso de Economia da EEG/UMinho]

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