Não é novidade que a indústria do turismo movimenta
intensamente a economia em todos os cantos do planeta e que está sempre a ser
reinventada, fazendo com que novos segmentos, fruto de uma criatividade ligada
quase sempre ao âmbito econômico, sejam criados constantemente. No entanto, um
ramo considerado um tanto peculiar e ainda visto como “tabu” por grande parte
da população vem adquirindo notoriedade entre turistas e viajantes mais
curiosos ou amantes da história: o turismo cemiterial, nicho considerado
integrante do que pode ser chamado de “turismo macabro”[1].
Entre os atrativos deste último, encontram-se sítios ligados à morte, ao
obscuro, ao medo e a experiências que podem ser bastante traumáticas quando
vivenciadas na realidade e não no âmbito do turismo.
Cemitérios como o da Recoleta, em Buenos Aires
(Argentina), Père Lachaise, em Paris (França), e o Antigo cemitério judaico de
Praga (República Tcheca) são ícones do segmento turístico de que se fala e
gozam de grande relevância entre os roteiros de turistas das mais diversas
nacionalidades, uma vez que oferecem ao público não apenas a experiência pelo
viés da história da arte, ao conter estilos distintos de arte e arquitetura, mas
também a história de toda uma população, seja ela local, regional ou nacional.
É possível visualizar, nos dias de hoje, que o
interesse na cultura contida, implícita e explicitamente, em campos-santos, tem
crescido em Portugal entre residentes e grupos vindos do exterior, fazendo com
que esse ramo do turismo passe a obter maior visibilidade e, por consequência,
incentivo por parte de instituições públicas e privadas. A cidade do Porto, por
exemplo, conta atualmente com alguns eventos culturais nesta área, tais como a
Semana à Descoberta dos Cemitérios e o Ciclo Cultural dos Cemitérios do Porto
(já encaminhando-se para a sua décima edição), sem mencionar ainda a oferta de
cursos de mediação para que guias turísticos possam adentrar este mundo ainda
pouco explorado, quando em comparação com outros segmentos da área. Desde o ano
de 2003, visitas mediadas são oferecidas em cemitérios do concelho e sabe-se
que há demanda por parte de turistas estrangeiros, os quais contabilizam grande
parte do percentual de visitação nos mesmos.
No entanto, não é apenas a cidade do Porto que está
a explorar as potencialidades do turismo cemiterial - outros diversos sítios em
Portugal passaram a perceber o leque de possibilidades e o consequente retorno
económico, social e cultural oportunizado por esta área em questão. O turismo
emergente passa então a atuar no fomento e na ampliação de atividades
empreendidas pelas câmaras e autarquias, uma vez que nota-se o aumento de
demanda e, portanto, ações voltadas ao campo são organizadas.
Por fim, a afloração do chamado turismo cemiterial
representa a abertura de novas possibilidades, no quadro do desenvolvimento
cultural de determinadas cidades e regiões, fazendo com que haja um aumento no
movimento de turistas e possivelmente um incremento na economia destes sítios.
No entanto, ainda é cedo para determinar os impactes a longo prazo deste tipo
de turismo na economia e no âmbito do desenvolvimento local e regional, uma vez
que os estudos sobre a matéria são muito recentes, mas um ponto é certo: o
crescimento deste segmento do chamado turismo macabro só tem a acrescentar,
tanto no âmbito educacional, quanto no cultural e econômico, visto que
significa um novo estilo de experiência não apenas para a população que vive
nas proximidades destes sítios de importância histórica e turística, mas também
para todos os curiosos que optam por estas vivências.
Angélica Vedana
Bibliografia:
https://www.publico.pt/2017/11/13/p3/noticia/visitar-um-cemiterio-como-um-museu-o-turismo-que-mostra-outro-lado-das-cidades-1828837
Acesso em 13 de março de 2019
https://www.cmjornal.pt/portugal/detalhe/cemiterios-atraem-milhares-de-turistas
Acesso em 13 de março de 2019
https://www.publico.pt/2011/05/15/sociedade/noticia/quando-os-turistas-procuram-a-cultura-da-cidade-morta-1494254
Acesso em 12 de março de 2019
http://www.cm-porto.pt/ciclos-culturais/atividade-cultural-dos-cemiterios-do-porto
Acesso em 12 de março de 2019
[1] “Rojek [1] is probably the earliest
scholar that coined the term “dark tourism or thanatourism”, which describes
any form of tourism activities revolving around a destination that involves
notable death.”
(Artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular “Património Cultural e Políticas de Desenvolvimento Regional”, do curso de Mestrado em Património Cultural do ICS, a funcionar no 2º semestre do ano letivo 2018/2019)
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